Quem lê / Who's reading

"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto

sábado, 10 de novembro de 2012

Poupée cassée

Dark Lolita (Kodona Style)_by Cha Tox


Como um espartilho colado à cintura, o sentia, a apertar o peito, esse amor, que sem ela saber bem como, ali estava. Contra o peito, espartilho, cortava o ar à respiração. Tinha ouvido dizer que havia quem não o usasse, mas estava habituada, o espartilho moldava-lhe a cintura fina, o colo generoso, sentia-se bonita.

Não poderia sair à rua sem o seu espartilho, seria mais um boneca desengonçada, triste. Sabia que o silêncio a rodearia, como a olhariam, e que esse não esse o olhar que queria.

Quando tirava a roupa, quando a pele se tocava, os lábios se beijavam e os corpos se misturavam, em movimentos compassados, ensaiados; ainda mantinha o espartilho. Sentia aquele calor estranho, como se fosse apenas morno, mas ao mesmo tempo a queimasse, deixando uma ferida fria que sarava no dia seguinte. Sarava quando saía e não era boneca desengonçada, sem espartilho que a mantivesse elegante.

Mas quando se via nua apenas ela, quando se atrevia a tirar a roupa frente ao espelho, desapertava o espartilho, conseguia respirar, e parecia bom, parecia que podia ser livre. E então o medo era mais forte, não podia ser bom, nunca seria nunca bom, não seria nunca uma boneca desengonçada, triste, só.

-*-*-*-

Like a corset glued to the waist, she felt it, against her chest, that love. That love that was there, without her knowing how. Against her chest, corset, cutting off the air to her breathing. She had heard that some didn’t use it, but she was used to it, the corset would shape her thin waste, her generous bosom, she felt pretty.

She could go out without her corset, she would be another gangling doll, sad. She knew silence would surround her, how people would look at her, and that was not the look she wanted.

When she took her clothes, when skin would touch, lips would kiss e bodies would mix, in rhythmic movements, rehearsed; she still kept her corset. She would feel that strange warmth. As if only tepid, but at the same time burning, leaving a cold wound that healed the next day. It healed when she went out and she wasn’t a gangling doll, without a corset to keep her elegant.

But when she looked at herself naked, when she dared to take the clothes in front of the mirror, she would untie the corset, she could breath, and it seemed to be good, it seemed as if she could be free. And then, fear was stronger, it couldn’t be good, it would never be good, she would never be a gangling doll, sad, alone.

23 comentários:

  1. Um texto muito bem concebido.

    Que são os espartilhos? Suportes ou prisões?


    Beijinho, amiga.

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    1. Penso que são ambos, depende de quem os usa... Beijinhos

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  2. Isa, há uma sensibilidade e uma sensualidade intensas e profundas no seu texto.
    Gostei é dizer pouco.
    Excelente!

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    1. Obrigada Dulce, ainda bem que gostaste!

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  3. Lendo o teu belíssimo texto senti alguma dúvida em relação à forma de sentir e viver o amor.

    Vivido como um espartilho é sufocante...

    Beijos.

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    1. Mas por vezes enquanto ainda se respira, essa sensação não é visível...

      beijos

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  4. Tão dificil olhar a pele nua do que nos torna suportável a elegância de ser sem que o olhar do outro seja aprovação.

    Beijo Isa

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  5. Há espartilhos que são castradores da liberdade...
    Magnífico texto.
    Isa, tem uma boa semana.
    Beijinhos.

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    1. Embora pareçam ajudar a andar...

      Obrigada pela visita e pelas palavras, Nilson!

      Beijo

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  6. doeu-me este texto.

    e sabes, acho que com ou sem espartilho, por vezes é assim que nos sentimos.

    muito bem escrito, como aliás tudo o que escreves.

    um beij

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    1. Escolhi o amor para espartilhar, mas na realidade acho que este sentimento está presente em várias áreas da nossa vida...

      Obrigada pelas palavras que sempre aqui deixas!

      Beijos

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  7. Por vezes publico os vossos comentários através do telemóvel e... por vezes o ecrã táctil é sensível demais... E por isso sem querer apaguei o comentário da Vanessa (Escritora de Artes)... Com as minhas desculpas, aqui transcrevo o comentário que recuperei no e-mail:

    "Olá Isa,

    Intenso... gostei muito!

    Abçs "

    E obrigada eu, pela tua visita!

    Beijos

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  8. Vejo o espartilho como algo sufocante, e por vezes sinto-me com ele...
    Gostei muito deste belíssimo texto!
    Bjs

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    1. Por vezes o espartilho aperta-se-nos à cintura...

      beijos, obrigada

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Espartilho é coisa do passado! O que vale mais hoje é a generosidade dos corpos sem sufocar física ou mentalmente. Entende? Gostei muito do texto. Bj

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    1. Entendo, sim! Mas acho que ainda há quem insista no espartilho...


      Beijos

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  11. Minha querida

    Por vezes esse espartilho tira-nos a liberdade de sermos nós...mulheres plenas.
    Sempre profundo ler-te.

    Um beijinho com carinho
    Sonhadora

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  12. É triste quando nos acostumamos com os espartilhos da vida...
    Muito bom o texto, Isa.Gostei muito!

    Beijinhos.

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  13. o espartilho da alma, por vezes é difícil solta-la

    deixa-la ser, sermos mais nós!

    gostei imenso!

    Beijinhos!

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Um espaço para recortes que completem o álbum de instantâneos... Obrigada pela visita!
A space for clip to complete this snapshot album... Thank you for your visit!

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