Quem lê / Who's reading

"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto

sábado, 18 de Outubro de 2014

Tecedeira

Foto: Christophe Gilbert

Senta-te aqui
Neste tapete que teci
Para ti

A cor dos teus olhos
Foi a que escolhi
Para o detalhe do bordado
Feito por cima
Da linha que prendi
Nos tons do teu cabelo
Assim este manto que estendi
Descansa nele tuas asas.

Vem
Senta-te aqui
Neste tapete que teci
Para ti –
Diz a aranha
À borboleta. 


Poema originalmente publicado aqui, no Beco de Ideias.


sábado, 11 de Outubro de 2014

Diálogo



Encontrei-os. Ao silêncio e ao ruído. Podem ambos conviver em mim. Precisam um do outro. Se não se atrapalharem mutuamente, se se entenderem, se se permitirem um ao outro, fazem maravilhas.
Encontrei a dor e a cura. Ela vem sempre que lhe abrimos a porta. Ambas vêm só quando lhes abrimos a porta.
Encontrei o caminho. Basta abrir os olhos e ver. E deixar que os olhos vejam. A coragem para o seguir é o que vem logo depois. E custa muito menos que o primeiro esforço de abrir os olhos. E de deixar a ilusão de que a Felicidade só existe às vezes. E de que não temos lugar.
Há sempre um lugar. Nós somos o lugar. Onde podemos descansar. Ou não. Podemos também correr.
Somos peças de puzzles, mas não precisamos encaixar perfeitamente. Se fosse assim, o puzzle não seria tão belo. E não faria sentido. Não seriam precisas tantas peças.
Por isso como poderemos alguma vez estar desalinhados? 
E porque sei que não, chegou a hora de ir. Não vou embora. Apenas sigo. Não desapareço. Apenas estou. No meu lugar.

Até sempre,

A Desalinhada

sábado, 4 de Outubro de 2014

Tenebroso vale - Desafio do Carlos Saramago

Desenho: Carlos Saramago
O Carlos Saramago desafiou-me para escrever um texto sobre este seu trabalho, e o resultado foi este:

~*~

Jardim Tenebroso

Chegada ao fim do caminho, daquele
Minha alma olhou um vale
Onde queria verde:
Um jardim tenebroso!
Local ignorado
Prendeu-a por fio de seda por conhecer
Tocava uma música
Que não sabia escrever
Tantos olhos tinha
E de súbito não via!
Virada de pernas para o ar
Restava-lhe olhar mais fundo
Entender como ali fora.
Embutida de novo fôlego
Poderá talvez içar-se
Em asas coloridas
Acima do caminho
Do que foi
Para que ela seja!

~*~

Para conhecer melhor a obra do Carlos, convido-vos a visitarem o blog e/ou o site dele:






sábado, 27 de Setembro de 2014

Estrelas Chãs


Paulo Gouveia
fotografia
Exposição Estrelas Chãs



Estrelas chãs
De que via serão?
Impressão da láctea
Ou de longínqua morada?
Quanta luz percorreram
Até este Alentejo?
Iluminam os pés
Dos homens adormecidos
Os que pisam esta via térrea
Indiferentes ao caminho
Que se estende
Ainda não o encontraram
Não sabem que o procuram
Esqueceram como ler
As estrelas chãs:
A sua não encontram
O chamamento é ancestral
A linguagem universal
A poeira é esquecimento
Mas o vento não desiste
E no chão
As estrelas esperam…

25.09.14, Marvão


No vídeo podem ver uma parte da exposição “Estrelas Chãs”, de Paulo Gouveia, que descobri na Galeria de Marvão. Segundo o autor explica, estas “estrelas” decoram algumas ruas da região e, nos nossos dias, ninguém sabe o que terão siginficado estas inscrições na calçada…

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Um abraço

Foto: Descendo, Eduardo Cunha

Durante muito tempo temi o silencio. Quando ele me encontrava, apertava-me tanto, que a única hipótese que me dava era quebrá-lo. De uma única forma o conseguia. Com um grito do peito. Que tirava um pouco de mim a cada dia.
Temia-o. E no entanto chamava-o. Quando não vinha procurava-o como quem quer. Porque só ele me fazia libertar o tanto ruído que tinha. Que não me largava. Que eu não queria deixar ir. Que não podia. Que não queria.
Temia-o. Ás vezes ainda o temo. Ainda faço barulho para me esquecer que ele está ali.
Mas ele espera-me. Paciente. Sabe que volto. Sabe que o preciso.

 # Monólogos da Desalinhada #

sábado, 6 de Setembro de 2014

Dúvida

Foto: Vadim Stein

É do fundo do ventre
Que me salta a dúvida
Poderás tu existir
Poderei eu ser
Se tu não fores?
Sobrevive a terra fértil
Sem raízes que dela se alimentem
Sem ver o verde
Que lhe dará sombra?
Poderá assim
Terra fecunda
Ser estéril?

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