Quem lê / Who's reading

"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto

sábado, 13 de junho de 2015

A cicatriz marca o lugar

Foto: Vadim Stein

Do Amor
Só guardo cicatrizes
De cortes até à veia,
Algumas poucas.
Superficiais, outras.
Nem cheguei a sentir, não muito. Só uma picada,
Como se fossem anestesia
Para o que viria depois.
Cortes feitos sem pressa,
Estes que olho agora.
Quase com arte, diria.
Sei que foi Amor,
Porque senti a faca
A entranhar-se na pele,
E eu deixei.
Sei que foi Amor
Porque a minha carne
Logo se fechou;
Como se a lâmina
Tivesse também ela bálsamo.
E tinha.
Não era veneno,
Porque eu ainda estou viva,
E a ferida fechou.
A cicatriz marca o lugar.
Crava de novo o meu corpo,
Amor,
Ainda que me firas de novo,
A minha pele sara,
Com teu balsâmico veneno…



Poema originalmente publicado no Blog Tubo de Ensaio - Laboratório das Artes. Podem conhecer este espaço aqui.

sábado, 6 de junho de 2015

Formiga

Pobre formiga

Parada neste tempo

Procura asas


Isa Lisboa e Sandra Henriques


Foto: www.pixabay.com


sábado, 30 de maio de 2015

Intermitências

Foto: www.pixabay.com


Sou eu
Mas já não sou
Quanto mudou
Nas intermitências
De esquecer
E de deixar ir…
Leve,
Sei que ainda há
A libertar.
Decidida
Tranquila.
De mim
Não mais abdicarei.
O que a mais habita
Não ficará.
Passo a passo, a seu tempo
Se irá
Quando olhar para trás
Será mais um degrau
Da história de quem fui
Da escada que subi
Para chegar a quem sou.

sábado, 23 de maio de 2015

Tela da vida

Foto: Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard 
Na tela da vida, tudo está em branco, é promessa, possibilidade.
Numa mão, o pincel, noutra a paleta de cores.
No processo de encher a tela, somos tentados a acreditar, acreditamos por vezes, que apenas uma cor nos é permitida. Mas se assim fosse, porque nos seria dada toda a palete? – perguntou-se a menina.
Ainda que as formas desenhadas pelo pincel possam ser diferentes, a menina olhava para as cores e não concebia pintar a sua história com uma cor apenas.
Poderia escolher o verde a lembrar a vibração da vida, as folhas das árvores que vestem os ramos que se estendem até ao alto. Assim como os braços dela procuravam tanto além de si mesma.
Mas então sentiria falta do azul, a lembrar o mar e o céu e o encontro dos dois, azuis em dança. A calma e a borrasca que ambos oferecem, porque como toda a terra, são dois pesos de uma balança, à procura de equilíbrio.
E como abdicar do calor do amarelo, lembrando o sol que alimenta e que, numa carícia sobre a pele nos lembra que somos parte de um todo, feito em pó de estrelas.
E o laranja, da fruta fresca, olhá-lo lembra tanto o sabor como o aroma.
O rosa? Delicado como a flor, apesar dos espinhos, não saberia viver sem ele.
Vermelho, não o poderia deixar de fora, já que até nas veias nos corre…?
Nenhuma das outras cores da paleta conseguia descartar, nem o branco nem o preto, da luz e da sombra que em todos nós habitam!
E por isso, no processo de encher a tela, a menina deixou que o pincel corresse pela paleta e, a cada pincelada, escolhesse a cor que o coração lhe mandava!


In Meninas Aladas

sábado, 16 de maio de 2015

Caminhos

Foto: Andrea Clare
Procurei-te
Tempos e tempos
Talvez anos a fio
Nem sinal nem pista
Nada encontrava
Certa
Da tua existência
Jamais capitulei
Pelas estradas segui
Entre pó e alcatrão
O destino era certo.
Um dia senti-me cheia
Alguém te conhecia
Sabia-te ali perto.
Meus pés
Com energia renovada
Correram mais rápido
Que nunca.
Cheguei, perguntei.
Sim, estiveras ali
Desânimo, partiras.
Sentada numa pedra solitária
Decidia
Se seguia ou atrás voltava.
Um infante se aproximou
Sentou-se à minha frente
Finalmente chegaste!
Era esperada?
Sim, há muitas luas!
Quem to disse? Porquê sou esperada?
Disse-mo quem
Caminho te preparou
Esperada porquê?
Partiu ontem
Sem me o dizer!

sábado, 9 de maio de 2015

Storm

Foto: Autor não identificado

I will always remeber you
As my little storm
Meu porto de abrigo
Águas calmas
Cold drops of rain
Bálsamo na minha pele
Strong wind surrounding
Brisa que me chama a dançar
A hurricane
Despindo-se de mim
A thunder
Embalando o meu corpo
Wimp of nature
Meu cataclismo.

Poema originalmente publicado no Tubo de Ensaio - Laboratório de Artes

sábado, 2 de maio de 2015

Beija-me e cala-me esta dúvida

Beija-me
Cala-me o coração
Que não sabe
Se fuja
Se bata mais depressa
Beija-me
Cala-me o calafrio
Que percorre a espinha
Quando me olhas
Como se me tocasses
Beija-me
Cala-me as mãos
Que querem percorrer-te
Mas não sabem se
Beija-me
Cala-me os lábios
Que falam
Dúvidas
Que querem ser caladas.


Beija-me. Cala-me. 

Desenho: Beija-me e cala-me, Carlos Saramago

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