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"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 23 de maio de 2015

Tela da vida

Foto: Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard 
Na tela da vida, tudo está em branco, é promessa, possibilidade.
Numa mão, o pincel, noutra a paleta de cores.
No processo de encher a tela, somos tentados a acreditar, acreditamos por vezes, que apenas uma cor nos é permitida. Mas se assim fosse, porque nos seria dada toda a palete? – perguntou-se a menina.
Ainda que as formas desenhadas pelo pincel possam ser diferentes, a menina olhava para as cores e não concebia pintar a sua história com uma cor apenas.
Poderia escolher o verde a lembrar a vibração da vida, as folhas das árvores que vestem os ramos que se estendem até ao alto. Assim como os braços dela procuravam tanto além de si mesma.
Mas então sentiria falta do azul, a lembrar o mar e o céu e o encontro dos dois, azuis em dança. A calma e a borrasca que ambos oferecem, porque como toda a terra, são dois pesos de uma balança, à procura de equilíbrio.
E como abdicar do calor do amarelo, lembrando o sol que alimenta e que, numa carícia sobre a pele nos lembra que somos parte de um todo, feito em pó de estrelas.
E o laranja, da fruta fresca, olhá-lo lembra tanto o sabor como o aroma.
O rosa? Delicado como a flor, apesar dos espinhos, não saberia viver sem ele.
Vermelho, não o poderia deixar de fora, já que até nas veias nos corre…?
Nenhuma das outras cores da paleta conseguia descartar, nem o branco nem o preto, da luz e da sombra que em todos nós habitam!
E por isso, no processo de encher a tela, a menina deixou que o pincel corresse pela paleta e, a cada pincelada, escolhesse a cor que o coração lhe mandava!


In Meninas Aladas

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Amizade

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard – Presente da Fátima

















Ainda que haja distância
Mundo afora estejamos
Irmãs de coração
Zinia colorida
Abraça a estrada
Dúvidas não há:
Estaremos sempre perto!



In Meninas Aladas

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Chuva

A tempestade abateu-se violentamente sobre a rua. Corro, mas subitamente cansada, rendo-me a ela e ao frio que me trespassa o corpo.

Paro sob os beijos das pesadas gotas da chuva e deixo-me levar pelo abraço do vento que me rodopia não sei para onde.

Não ofereço resistência, percebo que tenho que viver o Inverno, assim como outras estações. Todas no seu tempo, todas quando os astros mandarem.

Temi deixar de poder ser borboleta, colibri e ainda coruja à noite. Mas é apenas tempo de as minhas asas descansarem.

E envolta nestas divagações me vejo pousada no chão, com delicadeza contrária àquela que me puxou.

É o vento quem está agora cansado. Também a chuva parou. Em quase tudo.
Mas por cima de mim ainda. Uma chuva miudinha. Fresca. Suave carícia.

Não sei quando, mas a Primavera vai chegar.


In Meninas Aladas

Foto:  Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard 
Presente da Fátima

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Árvore – lanterna

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard
Presente da Fátima


Com a cortina agora já quase encerrada sobre Janeiro, amparo-me à minha pequena árvore-lanterna. Ainda lá se mantém no cimo a luz que apanhei  no Solstício de Inverno, e ainda que os dias sejam já mais claros, é lá que a quero manter.

Hoje que chove e faz frio, recolhi as asas, acolho a lembrança dos dias quentes e nela me agasalho. Protegida dos elementos, me renovarei, de acordo com o mês de Jano.

Ainda assim, ao contrário do deus, olharei apenas numa direcção, para o que vem.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Palavras no vento

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard – Presente da Fátima

Guardava as palavras nas mãos, entre duas conchas. Sentia-as um tesouro, que só eu conhecia. Gostava de as juntar, formar palavras, juntar estas em seguida, imprimindo a alma em tinta azul, numa folha de um caderno.
Dentro da concha sentia-as inquietas, saltitavam rebeldes. Falavam-me do mundo para lá daquela folha.
Eu, que à minha maneira, era saltimbanco, não podia mais retê-las.
Com elas fiz um papagaio, voam ao vento, juntam-se de outras formas, outras palavras desenham, outras histórias cantam, ao sabor quer da brisa, quer do vento forte.
E continuam a ser o meu tesouro…

sábado, 17 de agosto de 2013

Flutuar

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard – Presente da Fátima

Um dia disseram-me: “Não tens asas, não podes voar!”
Apenas sorri. Pois já sabia.

Que apenas minha alma, não umas meras asas, me fariam flutuar!


sábado, 6 de julho de 2013

Menina asas de borboleta

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard - Presente da Fátima

Sempre tive asas. Desde que me lembro. Desde que nasci, parece-me. 

Não sabia para que serviam. Pequeninas, frágeis. Onde poderiam levar-me?

E quando falava nelas, ninguém me acreditava: ninguém as via a não ser eu! Seriam apenas fruto da minha imaginação? As crianças têm uma imaginação fértil, diziam-me os crescidos. 

Por isso às vezes duvidava...

Cresci, mas continuava a sentir as minhas asinhas presas às minhas costas, por vezes mexiam-se sem que eu pensasse nelas. Como se quisessem lembrar-me que haviam sido feitas para voar. E acho que era mesmo isso que queriam.

Mas continuavam invisíveis, e aos crescidos já não se desculpa a imaginação.

Comecei a não falar nelas...

Mas quando se nasce com asas, o vento nunca deixa de nos chamar. E vem o dia em que o vento é tão forte , que não podemos fingir que não o ouvimos.

E foi então que tive que as experimentar, comecei a bater as asinhas,  devagar ao início, depois percebi que elas eram fortes. Mais fortes que eu imaginava.

E, desde então, não mais deixei de voar.

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