Foram uns olhos grandes, brilhantes, ávidos.
Sobretudo ávidos. E neles se liam sonhos, e esperanças e vida.
Sobretudo vida. E liam-se sorrisos, e abraços, e peito aberto ao Mundo. E mãos,
mãos estendidas, prontas a agarrar, a segurar. E seguravam. E seguravam-se.
E a vida foi acontecendo, mãos foram-se soltando, nos olhos se
foram lendo a pouco e pouco outras palavras. Ainda os olhos não desistiram das
primeiras. Mas elas foram desistindo deles.
E os olhos então foram doando palavras, a quem ainda as podia
usar. E foram esquecendo que eram olhos brilhantes. E ávidos. Sobretudo ávidos.
Insistiam no entanto em viver. Ainda que agora só conseguissem
viver mais devagar. E mais cansados. Teimando cansados. Cansados de teimar, aos
dias.
Até que um dia, numa tarde que já se não sabia qual era, por ser
tão igual – nesse dia que foi diferente, esses olhos adormeceram. E nessa
tarde, ninguém os acordou.
Nas tardes seguintes, os dias continuaram iguais, indiferentes à
luz que se extinguiu. E os olhos que um dia disseram sonhos, descansaram do que
não foram e foi a realidade alheia que os encontrou, olhos que não conhecia. Os
olhos de outrora, se tinham ido, ou se tinham ficado por outros dias. E então
coube àqueles olhos desconhecidos olhar à volta, e não encontrando olhar algum,
fechar definitivamente a cortina que há muito se abatera sobre aqueles olhos
brilhantes. E sonhadores. E cheios de tudo quanto se esvaziou lentamente.
Isa Lisboa


