Quem lê / Who's reading

"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 1 de novembro de 2014

Castelos de princesa

Foto: Bonnybbx 
Fonte: www.pixabay.com/


Ainda lá se erguem
Imutáveis, eternos
Os meus castelos de princesa.
Hoje entrei
Os meus passos ressoaram
No salão de baile
Sentei-me naquela salinha
Onde costumava tomar chá
Estou tão grande
Ocupei tudo!
Mas ainda fiquei por momentos,
Ao fundo o rio, azul
Plácido
Espelho ao sol
Ao fundo, como se o olhasse da janela…
Arrastando o vestido,
Continuei.
A entrada para a floresta encantada
Devo ou não entrar?
Tal qual como quando era princesa.
Os pés pisam as folhas do Verão
Faz-me falta pisar verde
A chuva fininha que trazia
Mistério…
Ali ao fundo é já a saída
Também os meus pés
Estão tão grandes!
Desacerto o passo
Olho à volta
Apetece-me ser princesa
Só mais um bocadinho…
Estou tão grande já
Fecho os olhos
Sou pequenina
E caibo dentro de todo este Mundo!

Isa Lisboa

sábado, 6 de julho de 2013

Menina asas de borboleta

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard - Presente da Fátima

Sempre tive asas. Desde que me lembro. Desde que nasci, parece-me. 

Não sabia para que serviam. Pequeninas, frágeis. Onde poderiam levar-me?

E quando falava nelas, ninguém me acreditava: ninguém as via a não ser eu! Seriam apenas fruto da minha imaginação? As crianças têm uma imaginação fértil, diziam-me os crescidos. 

Por isso às vezes duvidava...

Cresci, mas continuava a sentir as minhas asinhas presas às minhas costas, por vezes mexiam-se sem que eu pensasse nelas. Como se quisessem lembrar-me que haviam sido feitas para voar. E acho que era mesmo isso que queriam.

Mas continuavam invisíveis, e aos crescidos já não se desculpa a imaginação.

Comecei a não falar nelas...

Mas quando se nasce com asas, o vento nunca deixa de nos chamar. E vem o dia em que o vento é tão forte , que não podemos fingir que não o ouvimos.

E foi então que tive que as experimentar, comecei a bater as asinhas,  devagar ao início, depois percebi que elas eram fortes. Mais fortes que eu imaginava.

E, desde então, não mais deixei de voar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Depressa demais / Too fast


Costumava correr atrás das flores.
Saltar para apanhar as nuvens.
Tentar apanhar um punhado de estrelas.

Agora sei que as flores não se movem.
Que as nuvens estão altas demais.
Que as estrelas ainda mais longe estão.

Cresci depressa demais.

Foto da web


Used to run after the flowers.
Jump to catch the clouds.
Try to catch a handful of stars.

Now I know the flowers don’t move.
The clouds are too high.
That the stars are further away.

I grew up too fast.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Baloiço / Swing


tree-swing-keinu_by ansik


Já tinha sido um baloiço vermelho, com as correntes direitas, bem oleadas. As crianças não brincavam sempre, o intervalo não durava o dia todo, mas quando era a altura, todas as crianças queriam brincar com ele. Cansava-se de andar para a frente e para trás, doía-lhe o metal, mas era feliz. O riso das crianças fazia-o esquecer do cansaço, descansava depois, quando o intervalo acabava.
A Alice era a sua favorita, muitas vezes ia sentar-se lá com ele quando já toda a gente tinha ido para casa. Movia os pezinhos devagar, compassadamente, apoiada nas correntes, sem balançar demais. Por vezes cantava. Baixinho. Mas ele ouvia-a. Cantava bem, voz melodiosa, talvez um dia viesse a ser cantora. Chegava um carro e ela ia embora, mas no outro dia voltava.
Isso foi quando era um baloiço vermelho. Agora a chuva, o sol, o granizo, haviam corroído toda a tinta, e ninguém o pintou de novo. As correntes estavam já tortas, meio gastas, em alguns sítios. Queria baloiçar, mas apenas um vento mais forte o fazia por vezes mover-se. Já não havia crianças a correr à sua volta, a competir pela sua vez de ir para o baloiço. Já não havia crianças. Ou pelo menos há muito tempo que não as via.
A Alice ainda passava lá, quase todos os dias. Mas estava crescida, supunha que já não o reconhecia. Passava lá perto e já não se sentava com ele. Tão pouco cantava. No fundo, talvez fosse isso que o deixava mais triste. A Alice já não cantava.

***

He had been a red swing, with his chains straight, well oiled. Children didn’t always played, the break didn’t last all day, but when it was time, all the kids wanted to play with him. Tired of going back and forward the metal would ached him, but he was happy. The laughter of children made ​​him forget the fatigue, he rested then, when the break ended.
Alice was his favourite, often she would sit there with him when everyone had already gone home. She moved her feet slowly, rhythmically, supported in his chains, without moving too much. Sometimes she sang. Softly. But he heard it. She sang well, a melodious voice, maybe one day she would be a singer. Then a car would come and she walked away, but returned the next day.
That was when he was a red swing. Now the rain, sun, hail, had destroyed all the ink, and nobody painted him again. The chains were already bent, worn through in some places. He wanted to swing, but only a strong wind made him move sometimes. There were no children running around, competing for their turn to go to the swing. There were no children. Or at least he didn’t see them anymore.
Alice still went there almost every day. But he was grown, he supposed that she no longer recognized him. She passes by and was no longer sits with him. Nor sings. At the end of the day, maybe that's what made ​​him sadder. Alice no longer sang.

sábado, 19 de maio de 2012

No meu sótão / In my attic

Imagem da web

No sotão da minha casa, guardo a minha infância.

Sento-me no chão, tiro um pedaço de memória do baú, e folheio as páginas amarelecidas pelo tempo.

O tempo não apagou as letras redondas e certinhas. Nem as cores que escolhi para os desenhos que ficaram, desenhava a vida como a via. Escrevia a vida como a via. Simples. Bonita. Cheia de perguntas, mas com resposta., todas.

As cores, o tempo não as apagou, mas esbateu-as…

Tenho agora mais palavras, mas menos cores.

+++++++

In the attic  of my house, I keep my childhood.

Seating on the floor, I take out a piece of the trunck, and I go through the pages  yellowed by time.

Time hasn’t erased the  perfect and round  handwriting. Nor the  colours I’ve picked for the drawings  stil there, I used to draw life the way I saw it. I wrote life as I saw it- Simple. Beautifull.  Full with questions, but with answer, all of them.

The colours, time hasn’t erased them, but hás made them lighter…

I have more words now, but not so many colours.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Menina lua

Imagem da Web

Menina lua
Queria dançar com as estrelas
Menina lua não sabia
Que elas saíam, a iluminar a rua
Quando menina lua sorria

Menina lua
Também queria ser mar
Quebrar as regras
Nos rios desaguar

Menina lua
Às princesas gostava de brincar
Vestidos de papel colorido,
Com folhas de serpentina,
Eram o que gostava de inventar

Menina lua
Soube que um dia havia de crescer
Menina mar
Os sonhos não queria perder

Numa caixa de papelão
Azul como as ondas do mar
Tampa pintada de estrelas
Foi onde guardou o luar
E um cartão
Deixou a si mesma:

“Nunca te esqueças de ser feliz!”
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