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"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 11 de outubro de 2014

Diálogo



Encontrei-os. Ao silêncio e ao ruído. Podem ambos conviver em mim. Precisam um do outro. Se não se atrapalharem mutuamente, se se entenderem, se se permitirem um ao outro, fazem maravilhas.
Encontrei a dor e a cura. Ela vem sempre que lhe abrimos a porta. Ambas vêm só quando lhes abrimos a porta.
Encontrei o caminho. Basta abrir os olhos e ver. E deixar que os olhos vejam. A coragem para o seguir é o que vem logo depois. E custa muito menos que o primeiro esforço de abrir os olhos. E de deixar a ilusão de que a Felicidade só existe às vezes. E de que não temos lugar.
Há sempre um lugar. Nós somos o lugar. Onde podemos descansar. Ou não. Podemos também correr.
Somos peças de puzzles, mas não precisamos encaixar perfeitamente. Se fosse assim, o puzzle não seria tão belo. E não faria sentido. Não seriam precisas tantas peças.
Por isso como poderemos alguma vez estar desalinhados? 
E porque sei que não, chegou a hora de ir. Não vou embora. Apenas sigo. Não desapareço. Apenas estou. No meu lugar.

Até sempre,

A Desalinhada

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um abraço

Foto: Descendo, Eduardo Cunha

Durante muito tempo temi o silencio. Quando ele me encontrava, apertava-me tanto, que a única hipótese que me dava era quebrá-lo. De uma única forma o conseguia. Com um grito do peito. Que tirava um pouco de mim a cada dia.
Temia-o. E no entanto chamava-o. Quando não vinha procurava-o como quem quer. Porque só ele me fazia libertar o tanto ruído que tinha. Que não me largava. Que eu não queria deixar ir. Que não podia. Que não queria.
Temia-o. Ás vezes ainda o temo. Ainda faço barulho para me esquecer que ele está ali.
Mas ele espera-me. Paciente. Sabe que volto. Sabe que o preciso.

 # Monólogos da Desalinhada #

sábado, 30 de agosto de 2014

Nadando

Sempre soube nadar só contra a corrente. Se me deixasse ir, afogava-me nas águas que levavam aonde eu já sabia e a calmaria das águas haveria de me engolir até que nada mais restasse.
Não chegaria nunca a terra, seria uma nova antártica. Mas de mim nem lenda ficaria, a história só lembra os derrotados quando há um herói que proclama vitória.
Nem eu o quereria, que me cantasse.
Se a corrente me vencesse os braços, apenas quereria ser esquecida. E esquecer.
A memória do que fui, sabê-la, tê-la presente, seria como afogar-me de novo. A cada segundo que passasse.
E é por isso que não consigo parar de nadar…!

Autor não identificado

sábado, 9 de agosto de 2014

Caixa alguma

Foto: Autor não identificado


Não caibo nessa caixa. Dou-te um pré-aviso, ainda que sabendo que não me ouves.
Não ouves o que te digo e por isso vais tentar colocar-me lá dentro, vais até ignorar o meu esbracejar defensivo. Acharás que podes mais que a física e que consegues colocar-me lá dentro. Tentarás fechar a tampa, usarás a força se for preciso. Mas a tampa não vai fechar.
E, porque acharás sempre que encontrarás um lugar onde me colocar, irás buscar outras caixas. E o périplo de novo se iniciará. Hei-de sempre resistir e tu hás-de sempre tentar. Talvez sejamos apenas dois teimosos, que insistem em teimar, apesar das evidências.
Mas eu não caibo nessa caixa. Por isso não posso deixar-te. E não caibo em nenhuma. Pelo menos não caibo, certamente, em nenhuma dessas que insistes em fazer-me ajustar.

# Monólogos da Desalinhada #


sábado, 26 de julho de 2014

Chagas

Arte: Autor não identificado

Ferida aberta
O sangue jorra, quente
O calor adormece
A dor também
Pode tornar-se anestesia;
E enquanto não a olho
Não a sei.
Lembro as cicatrizes
A carne a fechar-se
Como me rasgou a pele
A agulha a suturar
Como pode a cura superar o golpe?
Regeneração ou mera estética,
A chaga desaparece
Ou fica por debaixo da pele?

sábado, 12 de julho de 2014

Se visses

Foto: Alex MCQUEEN
Se realmente visses o meu sorriso, verias o que atrás dele com esforço escondo.
Mas dele conheces apenas o contorno dos lábios, que se arqueiam mais ou menos, ao sabor da minha vontade.
Aprendi, como tantos, a ensaiar gestos, a reter a minha mão quando sinto que a água que me refresca pode transformar-se em fogo. A atrasar o passo quando me puxam por aquele trilho, aquele que não quero seguir, aquele que me leva para longe de mim. Atraso o passo, engano-me na saída, não posso revelar o destino, gestos ensaiados.
Ensaio assim a Felicidade, porque a ela o Mundo se habituou, e eu ainda quero um pouco do que era.
Mostro um sorriso. Se realmente o visses, ao meu sorriso, verias o que abertamente te mostro.

Verias que sorrio apenas com os lábios.

domingo, 29 de junho de 2014

Cansaço



Diz-me, Mundo, não estás cansado? Tens que estar, não é possível que não estejas cansado! Cansado, sabes o que é? Quando dói, mas uma dor de habituação, na vez daquela dor lancinante da surpresa, aquela que vem quando nos pregam uma rasteira e caímos ao chão de corpo todo. É sim aquela dor que mói, que pressiona os músculos, que os faz moverem-se mais devagar, ainda que a cabeça diga para correr. É isso o cansaço… Deves estar cansado…, não estás?

Pronto! Digo eu primeiro: estou cansada!!! Cansada destas lutas diárias contigo, deste eterno braço de ferro, que ganho nuns dias, perco noutros. Dias de glória, seguidos de dias de amarga derrota. E de bater de frente contigo, das nódoas negras que mal se vêm, mas estão lá… Na minha pele e na tua, Mundo! Não julgues que não tens marcas, porque também as tens, debaixo dessa tua basófia de que és superior a tudo, de que nada te atinge e nada te fere. És tão frágil como eu e como todos os outros. Só te julgas mais forte.

Mas tens a teu favor a vantagem da indiferença. Da indiferença de todos quantos se conformaram e vivem agarrados a ti. Alimentando-se de ti. Controlados por ti. Numa espécie de simbiose aparentemente equilibrada. E nem tu nem eles notam isso. Tu não notas que ninguém te reverencia, que apenas a necessidade e a comodidade os mantêm contigo. Muito menos eles notam que já se perderam a si mesmos…

E eu estou tão cansada… Por isso hoje apetece-me dizer-te que ganhaste! Que desisto! Que me leves tudo! Tudo o que sou, o que acredito, o que quero! Leva, leva tudo! Na realidade já tanto me tiraste, já tantos pedaços faltam neste puzzle embaralhado! Porque não levares tudo??


Leva, e deixa-me! Deixa-me aqui, sozinha, mas livre! Não pedirei nada mais!

# Monólogos da Desalinhada #

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Bullets

Arte: Marius Markowski
I feel the bullets in my body, most of them bounce back, they fall on the ground, next to their old shells, now empty shells.
Still, some reach my skin, blood pours from my flesh, wounds that will never completely close. Here and there, a big hole, from side to side, some bullets go just through.
But still no one merciful final bullet finds me. One bullet missing: the one that will bring me back to life…


sábado, 24 de maio de 2014

Reflexo

Olho o estranho reflexo no espelho e não o reconheço.
Na maioria dos dias é só o outro reflexo, o normal, aquele que não me faz perguntas incómodas, que nem me fala sequer!
Mas este, que aparece de vez em quando sem aviso, tem sempre perguntas, demasiadas perguntas!
E não tenho coragem de lhe responder, não quero saber a resposta, quero apenas que ele desapareça, aquele reflexo!
Não gosto dele, é inconveniente, aparece sem ser convidado, por mais que o ignore, não entende que não é desejado.
Por isso decidi: Amanhã o espelho sai desta casa!

Foto: Laura Williams


sábado, 22 de março de 2014

Conversa contigo



E se eu pudesse um dia falar contigo, que te diria?
Será que te avisaria dos buracos na estrada? Será que os evitarias, ou acharias ainda que os podias reparar?
Será que te avisaria que um dia a vida te agarrará pelos pulsos e que vais sentir que é por eles que respiras? E que um dia sentirás que não tens ar, e que te habituarás a isso, por momentos? Por momentos, antes mesmo de gritares mais alto, e de assim voltares a encher os pulmões, agora um pouco lesionados.
Respirar eu sei, dir-me-ias tu, sei expirar e inspirar, no tempo certo.
Mas sem querer, começamos a inspirar, inspirar, inspirar… Como te poderia avisar?
E como te poderia convencer de que tens crenças vãs, menina?
Menina não, cresceste depressa. E não cresceste, és criança, acreditas, não devias. Não és ingénua, apenas acreditas. Chamas-lhe esperança. És bonita, és feliz. Mas és tola. E vais perceber isso. Pensará que o Mundo to tirou. Mas não tirou. Tu é que és tola. Remas, não desistes da outra margem, mas ninguém gosta de navegadores. Só dos que a História recorda.
Por cada remadela que dás, há ventos que se levantam. E tu achas que os podes ultrapassar. Tola. Menina tola.
Tola és tu!, me dirias.
Talvez não te dissesse, tens tempo de crescer o que te falta. E eu quero que tenhas razão. Que a tola seja eu.
Se eu pudesse um dia falar contigo? Que te diria? A ti que eu já fui.

#Monólogos da Desalinhada

Foto da web

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bolha de silêncio

Há tanto vivo
numa bolha de silêncio,
auto-imposta
pelo ruído à volta.

No meu silêncio,
falo comigo mesma,
qual louca sem camisa de forças.

Rendo-me!

Se o mundo tivesse sido feito
pelos sãos,
ainda viveríamos numa caverna,
com medo de espreitar a luz.
Ficarei aqui,
mesmo sabendo que só os loucos
saberão encontrar-me!

# Monólogos da Desalinhada #

The Spirit of Photography, Anne Brigman.(1869–1950)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Aquela estátua

Dizem que a chuva já se foi, então porque a sinto em mim, escorrendo pela pele, pelos cabelos, então porque a sinto a entranhar-se nos ossos, então porque sinto um trovão a ribombar cá dentro?
Porque sinto a água a misturar-se no pó, lentamente a formar lama em torno de mim, uma camada protectora de lama.
Quando vier o sol, secará. E então tornar-me-ei estátua.
Presa dentro de mim mesma, a ver a vida à minha volta, a passar por mim, a ver os Outros a caminhar por ali, a passar sem me olharem sequer. Outros, alguns a pararem apenas para uma recordação. Uma foto com aquela que um dia Foi.
Por quanto tempo será que me vou debater com o invólucro? Será que me vou debater sequer? Será que este outro invólucro está tão cheio quanto eu o vejo?
Será que esta chuva é outra? A da rua? A da rua da estátua daquela que uma dia foi?

# Monólogos da Desalinhada #
Isa Lisboa


sábado, 16 de novembro de 2013

Toalha ao chão

Foto: Vadim Stein

# Monólogos da Desalinhada #
-- Isa Lisboa --

Lembro-me do exacto momento em que atirei a toalha ao chão! Estava ensanguentada e ensopada em suor, já mesclada com este líquido que se me substituiu nas veias.
Caiu pesada no chão, ecoou em mim, perdida no ringue.
Lembro-me do exacto momento. Aqueles segundos tornam-se cada vez mais distantes, o silêncio que explodiu na minha cabeça torna-se mais difuso.
Ainda hoje me pergunto se; mas quantos knock-out mortais devemos aguentar - na realidade?

sábado, 2 de novembro de 2013

Velocidades

# Monólogos da Desalinhada #
-- Isa Lisboa --

Primeira. Arranque rápido. Segunda. Terceira. Acelero. Quarta. Mais rápido. Quinta. Prego a fundo. Sem olhar para o velocímetro. Ainda vejo a estrada. Mais. Mais rápido. Não é pela adrenalina. É porque preciso chegar. Ou será pela adrenalina? Chegar onde? Chegar para quê? Ninguém me espera. Nem eu já me espero. Acelero só para chegar. Já não vejo o alcatrão, chegar? Se não sei para onde vou, como saberei que cheguei? Vou em quinta, não há sexta, continuaria. Mas não faz sentido. Travagem brusca.

Foto: Tran Nguyen

sábado, 19 de outubro de 2013

Loucura

# Monólogos da Desalinhada #
-- Isa Lisboa --

A Loucura fala comigo.
Procura-me

Senta-se à minha frente.
Fala-me com normalidade.

Sem perguntar se. 
Olha-me nos olhos.
Lê-me.
Fala comigo
Entendo-a melhor que à Sanidade.

Serei Louca,
Quando me sinto Sã?
Estarei Livre,
Quando me sinto Presa?


Arte: Gioia Cordovani



sábado, 5 de outubro de 2013

Doem-me as tatuagens

# Monólogos da Desalinhada #
Isa Lisboa

Doem-me as tatuagens. Não era suposto doerem-me, não agora. Era suposto ter sido apenas aquela dor – a da tinta a entranhar-se, pigmento a pigmento, a gravar-se em mim. Só essa dor. Momentânea.

Dor que se transformaria em cor, num desenho que ficaria para sempre, mas que me faria sorrir quando me olhasse ao espelho. Que me faria sorrir por ter vencido as cicatrizes, por delas ter criado algo de belo, que não mais doía ao olhar, que não mais afastava os estranhos, que não mais me afastava a mim. Que não mais me faria empurrar para longe quem se aproxima.

Doem-me as tatuagens. Doem-me como se fossem velhas feridas, daquelas que doem nos dias de frio. Doem-me como se fossem um membro estraçalhado, tirado de mim para que o sangue doente não mais passasse e não fizesse estragos no que sobrasse. Tira-se uma parte de nós, mas ela continua a doer, nos dias de chuva, nos dias de calor, nos dias em que tudo dói.

Dói-me e sei que estou viva, dói-me e sei que já vivi. A dor diz-me que nada do que fazia sentido, o faz mais, que me enganei em tudo o que esperei, que me enganei em tudo o que dei.

Doem-me as tatuagens, as que fiz com raiva, e mais ainda as que fiz com amor. O amor, em qualquer das suas formas, tem tanto o poder da cura milagrosa, como o poder de tudo devastar.

O lado negro do amor é como se fora uma bomba atómica. A ele poucos sobrevivem, e quando a explosão se dá, aqueles de nós que ficam de pé, não mais se reconhecem, o corpo já não é o nosso. Na alma ficam sulcos, enormes, como se foram machadadas, investidas por um lenhador inexperiente, que em vez de cortar o tronco em duas estocadas misericordiosas, investe várias vezes, tantas vezes, deixando ali lascas perdidas, indiferente à seiva que corre, perdida no chão da floresta.


Doem-me as tatuagens, as que fiz para lembrar, ainda mais as que fiz para esquecer. Já não era suposto doerem-me, escondi as cicatrizes com elas…

Arte: Sam Spratt

sábado, 7 de setembro de 2013

Relógio parado

Reloj, Salvador Dali

# Monólogos da Desalinhada #
Isa Lisboa

O relógio está parado.
E eu também.
Porque correm todos
Os que passam por mim?

Será que alguém matou o meu tempo?
Como posso não o ter notado?
Sempre me dizem que perco tempo
Com a vida
Com viver
Com sorrir apenas.

Mas não acredito neles.
O meu relógio parou por isso.
Para que eu possa fazer tudo
O que me faz feliz.
Que corram.
Não sabem para onde.
E dizem que fui eu
Quem perdeu o tempo.

sábado, 24 de agosto de 2013

Esta realidade (Negação)

Marcha dos Desalinhados, Resistência

# Monólogos da Desalinhada #
- Isa Lisboa -

Bom, se esta é a realidade que me cabe, então digo desde já que quero voltar.
Para o sonho, para trás do espelho, para lá do guarda-roupa, para lá da toca do coelho, seja de onde for que eu vi!
Não, não vou mudar de ideias. Esta realidade não me serve, nem eu lhe sirvo a ela! Anda para aqui a querer colar-se-me à pele, mas ou adesivo não tem cola ou a minha pele é escorregadia demais.
Não, não, não vai resultar.
A sério que tentei, mas não vai resultar. Tentei sentir-me em casa, tirar os sapatos ao entrar, andar descalça até ao sofá da sala, reclamar a minha almofada, vestir a tshirt rafada.
Mas não a encontro, a tshirt, devem tê-la deitado fora por a acharem velha, como se só as roupas novas nos servissem!
Art by James Lincke
E o chão está tão frio, não, não vou tirar os sapatos.
Não, esta não é a minha casa, sou nómada, mas da minha casa não abdico.
Bato à porta e ninguém me ouve, querem vencer-me pelo cansaço, convencer-me de que não sei quem sou, mas eu não vou deixar!
Não vou desistir de sair daqui, se preciso for, escavo um túnel com uma colher de chá, e se ele me levar ao outro lado do mundo… E também não fôr lá que quero ficar…? Escavarei outro túnel, compro umas asas, colo escamas à pele para melhor poder atravessar o oceano!
Mas não desistirei de procurar.

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