Quem lê / Who's reading

"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 26 de julho de 2014

Chagas

Arte: Autor não identificado

Ferida aberta
O sangue jorra, quente
O calor adormece
A dor também
Pode tornar-se anestesia;
E enquanto não a olho
Não a sei.
Lembro as cicatrizes
A carne a fechar-se
Como me rasgou a pele
A agulha a suturar
Como pode a cura superar o golpe?
Regeneração ou mera estética,
A chaga desaparece
Ou fica por debaixo da pele?

sábado, 29 de março de 2014

Embrulhados

Estão ali embrulhados
Dentro de uma caixa
Fechados sob uma fita
Num laço apertado
Atado por mãos
Que se acharam perfeitas
Um dia;
E noutro
Sucumbiram à realidade
Que lhes foi dada.
Estão ao menos guardados
Não foram por aí
Deixados
Mas fechei-os
Ao fundo de uma gaveta
Para não os ouvir
Eu que tanto gostava
De os escutar
Sentar-me com eles
A conversar
A delirar.
Fechei-os lá, amordaçados.
Não consigo mais,
Ouvi-los.
As mãos tremeram
Ao apertar o laço
Mas não podia mais olhá-los
Assim,
Desfeitos em pó.
Lembrar
De como um dia
Foram promessa…

Foto da web

sábado, 15 de junho de 2013

Procuro-te / Looking for you

Foto da web

Ontem adormeci a teu lado
Teus braços rodeavam-me
Tua pele colada à minha
Teu calor percorria-me as veias
Teu perfume invadia todos
Os meus poros
Sussurraste-me ao ouvido
Que eu era tua
Deste aos meus
Teus lábios
Sinto ainda aquele calor
Percorre-me o corpo
Não consigo libertar-me
Deste odor
Apossou-se de mim
Envolve-me
Oiço a tua voz
Faz-me vibrar rir chorar
Meus lábios pedem os teus
Sôfregos de ti
Minha pele anseia pelo teu toque
Sem ele não acalmará
Com ele explode.

A meu lado,
Ninguém… Procuro,
Em vão, um vestígio
Teu
Uma ruga no lençol
Na almofada
Nada.
Estou só.
Só a ilusão ficou.

Reescrita de um texto encontrado no baú, de Novembro de 1998


**


Yesterday I fell asleep at your side
Your arms around me
Your skin glued to mine
Your heath in my veins
Your perfume invading all
My pores
You whisper in my ear
I’m yours
You gave mine
Your lips
I still feel that heath
Runs through my body
I can’t get free
Of this odour
It holds me
It covers me
I hear your voice
Makes me vibrate laugh cry
My lips hunger for yours
Greedy of you
My skin longs for your touch
Without it it it won’t calm down
With it, it explodes.

At my side,
No one… I search,
In vain, a trace
From you
A wrinkle in the sheet
In the pillow
Nothing.
I’m alone.
Only ilusion remains.

Rewrited from a text found in my old trunk, November 1998

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Dream catcher


E então,
Ali estavas tu,
E eu,
A acordar contigo.
À noite,
Povoavas-me os sonhos,
Apanhavas-me os pesadelos.

As nossas noites eram
Estreladas,
Os dias eram-me
Espera,
Espera pelo luar
Que nos tapava a nudez,
Nua para ti,
Tu nu para mim.

Sem pressa,
Sem frio.
A nudez de um abraço
O silêncio do êxtase,
Num grito.
Madrugada.

Foto da web


And then,
There you were,
And me,
Waking up with you
At night,
You would walk in my dreams,
Catch my nightmares.

Our nights had
Stars,
The days were
Waiting,
Waiting for the moonlight
Covering our nudity,
Naked for you,
You naked for me.

No rush,
No cold.
The nudity of na embrace
The silence of extasy,
In a scream.
Dawn.

Isa Lisboa, 10.05.2013


sábado, 6 de abril de 2013

(Des)Esperança / (Un)Hope

Azam Ali – I’m a strange in this world


O tempo para ser ela mesma era sempre tão pouco! Passava sempre tão depressa aquele pedaço que tinha.
Todo o resto do tempo era para os carnavais de que já não conseguia fugir.
Durante muito tempo tentou, remou contra a maré, teimosa, solitária.
Um dia sentiu uma dor vinda de dentro, não era no coração, era em todo o lado, é assim quando nos dói a alma! Uma dor tão forte que a derrubou, caiu de joelhos, caiu o corpo todo de seguida.
Sentiu as lágrimas a caírem, eram lágrimas de cristal, pareciam, afinal eram apenas de vidro, ao caírem no chão transformavam-se em pedaços finos de matéria.
Apanhou-os em concha nas mãos, viu o seu brilho, viu neles reflectida a inevitabilidade.
Com eles fez as suas máscaras, nunca podemos usar só uma, muitos são os carnavais.
Usa-as sem orgulho, mas com resignação. Um dia todos aceitam que não escolhem o seu destino.
Mas reserva sempre um momento para as tirar, é curto o tempo, mas é dela, ainda é ela, naquele pedaço de tempo.
À noite, quando vai dormir, deixa as máscaras longe do quarto, no bengaleiro da entrada, é outro momento em que é livre.
Já percebeu que quem adormeceu com elas… nunca mais conseguiu tirá-las.
São de vidro… tem uma ténue esperança, ainda, de que um dia se partam, pó de vidro novamente…

***

The time to be herself was always so little! It always went by so quickly that piece she had.
The rest of the time was for the carnivals that she could no longer escape.
For a long time she tried, paddled against the tide, stubborn, lonely.
One day she felt a pain coming from inside, it was not in the heart, it was everywhere, so it is when the soul hurts! A pain so strong it knocked her, she dropped to her knees, her whole body dropped then.
She felt the tears fall, they were crystal tears, it seemed, but after all they were only glass, when they fell to the ground, they turned into fine pieces of matter.
She caught them in cupped hands; saw how they shined and how they reflected the inevitability.
With it she made ​​her masks, we can never wear just one, there are so many carnivals.
She wears them without pride, but with resignation. One day everyone accepts they can not choose one’s fate.
But she always reserve a time to take them out, time is short, but it her’s, she is still hersel, at that piece of time.
At night when she goes to sleep, she lets the masks away from the bedroom, at the cloakroom at the entrance, is another moment when she is free.
She has realized that those who slept with them ... never managed to get them out.
They are made of glass... she has a faint hope, still, that one day they breack, powdered glass again ...

quarta-feira, 20 de março de 2013

Nua / Naked


Baseado no meu ultimo post e em alguns dos comentários que me deixaram aqui…:

Nua

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Pele, músculo, osso.
Empurrada, nua, na rua.
.Alma.
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Based on my last post and on some of the comments left here:

Naked

--------------------------------------------------
Skin, muscle, bone.
Pushed, naked, on the street.
.Soul.
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sábado, 16 de março de 2013

Skin / Pele

Brian Cain, Wind

You took all my skin off. In just a few seconds, all my veins were in sight, showing the blood, flowing in it’s own rhythm towards the destination. And coming out again. Showing each one’s pulse, the more anxious, jumping from time to time, the more calm, enjoying the sight.
With another movement, they came off too.
Only muscles, now. Trying to hold together. All little fibres getting closer as if they were trying to form a sweater.
At last, I saw myself as only bones, glued to each other, desperately, sadly, keeping formation.
It was winter. I started getting colder. Got worse when I realized I was no longer inside. I was in  the middle of the street. At rush hour.
Some didn’t even noticed me. From the ones who saw me, only a few looked at me. Those smiled. The others kept on going, faster, faster.
It was getting so much colder now. And I got mad. How could you? Put me so undressed, in the middle of the street, in winter? How could I left… How…
A click. Bones touching.
People started moving even faster now.
So did my senses. I felt warmer.
So I asked time and space to stop, so that I could see them. And all the runners.
I saw the bandages some had on the skin, holding it together.
I had to peek, see if they were made of bone, just like me. They were.
They must have been on that spot once, too. Naked on the street. But they had bruises from the cold. They seemed to have dressed the skin back in a hurry. If the zipper got stuck, they’ve used glue.
Some made it harder on me. They had too much makeup. Through a slight breach, I saw them moving like pretty dolls, with perfect hair, tied in perfect little pig tails, having an imaginary cup of tea.
They looked at me, too. They politely said I should get dressed.
No, not yet.
I want to know what it’s like to kiss if you have no lips, and to touch if you have no skin. And I want to look at you, now that we are both free.

Writen 18.Nov.2005

***

Arrancaste-me a pele. Em apenas alguns segundos, todas as minhas veias estavam à vista, mostrando o sangue a fluir ao seu ritmo rumo ao seu destino. E saindo de novo. Mostrando o pulsar de cada uma, as mais ansiosas, saltando de tempos a tempos, as mais calmas, apreciando a vista.
Noutro movimento, também elas foram arrancadas.
Apenas músculos, agora. Tentando manter-se juntos. Todas as pequenas fibras juntando-se, como se estivessem  a tentar formar uma camisola.
Finalmente, vi-me como apenas ossos, colados uns aos outros, desesperadamente, tristemente, mantendo a formação.
Era inverno. Comecei a ficar com mais frio. Piorou quando percebi que já não estava em casa. Estava no meio da rua. Na hora de ponta.
Algumas pessoas nem sequer repararam em mim. Dos que me viram, apenas alguns olharam para mim. Esses sorriram. Os outros continuaram, mais rápido, mais rápido.
Estava a ficar mais frio agora. E então fiquei furiosa. Como pudeste? Deixar-me assim tão nua, no meio da rua, no inverno? Como pude eu deixar…Como…
Click. Ossos a tocarem-se.
As pessoas começam a mover-se mais rápido agora.
Também os meus sentidos. Senti-me mais quente.
E então pedi ao tempo e ao espaço para pararem, para que eu os pudesse ver. E a todos os corredores.
Vi as ligaduras que alguns tinham na pele, segurando-a.
Tive que espreitar, ver se eram feitos de osso, assim como eu. Eram.
Devem ter estado naquele lugar, um dia, também. Nus na rua. Mas tinham feridas do frio. Parecia terem vestido a pele à pressa. Quando o fecho emperrou, usaram cola.
Alguns dificultaram-me a vida. Tinham demasiada maquilhagem. Por uma pequena brecha, vi-os a moverem-se qual pequenas bonecas, com cabelo perfeito, atado em totós perfeitos, tomando uma chávena de chá imaginária.
Também eles olhavam para mim. Educadamente, disseram-me que devia vestir-me.
Não, ainda não.
Quero saber como é beijar, quando não tens lábios, e tocar quando não tens pele. E olhar-te, agora que somos ambos livres.

Retirado do baú, 18.Nov.2005
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