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"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 12 de dezembro de 2015

Solitudes – Uns olhos


Foram uns olhos grandes, brilhantes, ávidos.
Sobretudo ávidos. E neles se liam sonhos, e esperanças e vida. Sobretudo vida. E liam-se sorrisos, e abraços, e peito aberto ao Mundo. E mãos, mãos estendidas, prontas a agarrar, a segurar. E seguravam. E seguravam-se.
E a vida foi acontecendo, mãos foram-se soltando, nos olhos se foram lendo a pouco e pouco outras palavras. Ainda os olhos não desistiram das primeiras. Mas elas foram desistindo deles.
E os olhos então foram doando palavras, a quem ainda as podia usar. E foram esquecendo que eram olhos brilhantes. E ávidos. Sobretudo ávidos.
Insistiam no entanto em viver. Ainda que agora só conseguissem viver mais devagar. E mais cansados. Teimando cansados. Cansados de teimar, aos dias.
Até que um dia, numa tarde que já se não sabia qual era, por ser tão igual – nesse dia que foi diferente, esses olhos adormeceram. E nessa tarde, ninguém os acordou.
Nas tardes seguintes, os dias continuaram iguais, indiferentes à luz que se extinguiu. E os olhos que um dia disseram sonhos, descansaram do que não foram e foi a realidade alheia que os encontrou, olhos que não conhecia. Os olhos de outrora, se tinham ido, ou se tinham ficado por outros dias. E então coube àqueles olhos desconhecidos olhar à volta, e não encontrando olhar algum, fechar definitivamente a cortina que há muito se abatera sobre aqueles olhos brilhantes. E sonhadores. E cheios de tudo quanto se esvaziou lentamente.


Isa Lisboa

sábado, 5 de dezembro de 2015

Solitudes – O primeiro dia depois de ontem

Foto: Crushed_ Desgarrada - Don_Gato
Acordou cedo e sentiu o Tempo à sua volta. Estranhamente, o Tempo era quente.
Despiu a camisa de dormir e foi tomar banho. Água morna. Passou o sabão azul e branco pelos cabelos, pela pele. Terminou com água quase fria. Sentia menos o calor, agora.
Ao sair, viu-se de relance ao espelho. Voltou atrás. À tanto tempo que não se via: os lábios que há muito não eram beijados, as carnes que nunca foram tocadas, as pregas na pele que a faziam esquecer a possibilidade de novas promessas. O cabelo húmido e branco pingava-lhe pelas costas. Usava-o num rolo, preso com ganchos; não para esconder o branco, mas apenas para o segurar. Nunca conseguiu cortá-lo.
Hoje era o primeiro dia depois de ontem.
Misturado com o calor, sentia ainda o cheiro das flores e ouvia o som das lágrimas que caíram despudoradas. Não as dela, essas só caíram durante a noite, até se sentirem exaustas e a fazerem adormecer.
Vestiu um dos vestidos de ir à rua e calçou as alpercatas.
Saiu e viu que a aldeia continuava. Passou pela igreja e estava vazia. Não entrou. Chegando á venda, aviou-se e, de saco na mão, sentou-se no banquinho em frente. Fechou os olhos e ouviu a voz fraternal. A única que sempre teve.
“Preciso que vás ver dele.”, disse-lhe ela. “Amanhã falamos mais.”
E ela levantou-se.
A casa era duas ruas mais à frente. Usou a sua chave para entrar, e começou a fazer o desenjum para ambos.
Sem precisar de o chamar, ele veio à porta. Também dormiu pouco.
“Hoje não vou à eira.” – disse ele.
“Pois que seja, fico cá contigo hoje. Hoje não é dia de rega. Só amanhã. Ficamos por casa….”
O dia passou-se em silêncio. Sem movimentos.
Anoiteceu.
Hoje era o primeiro dia depois de ontem. Hoje o seu irmão era viúvo.
E hoje ambos começaram a aprender a ser sós um com o outro.

Isa Lisboa

domingo, 29 de novembro de 2015

Solitudes - Neste frio longe de casa

Foto: Banco de Jardim em Londres by lilivanili
Procuro a tua história nos teus cabelos desgrenhados, na barba suja, há tanto tempo por fazer. Nas roupas também já não a encontro, porque também já não são tuas as vestes que envergas e, pelo menos à primeira vista atenta, não te encontro algo que tenhas guardado.
Tenho de olhar-te os olhos, apesar de não o querer fazer, custa-nos sempre encarar quem um dia podíamos ser. Teus olhos dizem-me tristeza, já o sabia, mas uma tristeza diferente, uma tristeza vazia, como o resto que leio em ti.
Será que já foste completo, ou este vazio foi apenas o culminar de uma vida que nunca teve nada a contar? Se já antes viveste, pergunto-me o que te empurrou para os braços desta morte que se enrola no frio de Lisboa, ou de qualquer outra cidade. Esta morte que se alimenta do que há, ou do que lhes traz a bondade alheia.
Imagino que olharás os anjos da noite com o mesmo desprezo que me atiras daí. Perguntando como pode alguém estender-te uma mão, se tu não a tiras debaixo do casaco, a não ser para a aqueceres debaixo da outra.
Alheio aos meus pensamentos – ou não? – fazes o gesto de adormecer, como que a mostrares-me o quanto sou aqui desnecessária…
Sigo então.
E neste frio longe de casa, só oiço os meus passos, num eco desconfortável, pelo interromper do teu silêncio e do meu.
Caminho para casa e tu ficas, o eco irá perder-se, e talvez durmas então.

Isa Lisboa

sábado, 25 de julho de 2015

Dói-me esta capa

Foto: Vadim Stein

Hoje dói-me esta capa, esta capa que já não sei se é dura como aço ou frágil como seda.
Hoje dói-me, como se esta dor fossem encontrões da alma a tentar arranjar mais espaço, quem sabe a tentar sair.
Se ao menos eu soubesse como me alargar ou sequer como foi que a aprisionei…
Não me aprisionaste, parece-me ouvi-la dizer-me, fui eu que escolhi este invólcuro, se tento sair é apenas porque é a hora.
Hora de quê? Pergunto-lhe.
Hora de me veres.


sábado, 23 de maio de 2015

Tela da vida

Foto: Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard 
Na tela da vida, tudo está em branco, é promessa, possibilidade.
Numa mão, o pincel, noutra a paleta de cores.
No processo de encher a tela, somos tentados a acreditar, acreditamos por vezes, que apenas uma cor nos é permitida. Mas se assim fosse, porque nos seria dada toda a palete? – perguntou-se a menina.
Ainda que as formas desenhadas pelo pincel possam ser diferentes, a menina olhava para as cores e não concebia pintar a sua história com uma cor apenas.
Poderia escolher o verde a lembrar a vibração da vida, as folhas das árvores que vestem os ramos que se estendem até ao alto. Assim como os braços dela procuravam tanto além de si mesma.
Mas então sentiria falta do azul, a lembrar o mar e o céu e o encontro dos dois, azuis em dança. A calma e a borrasca que ambos oferecem, porque como toda a terra, são dois pesos de uma balança, à procura de equilíbrio.
E como abdicar do calor do amarelo, lembrando o sol que alimenta e que, numa carícia sobre a pele nos lembra que somos parte de um todo, feito em pó de estrelas.
E o laranja, da fruta fresca, olhá-lo lembra tanto o sabor como o aroma.
O rosa? Delicado como a flor, apesar dos espinhos, não saberia viver sem ele.
Vermelho, não o poderia deixar de fora, já que até nas veias nos corre…?
Nenhuma das outras cores da paleta conseguia descartar, nem o branco nem o preto, da luz e da sombra que em todos nós habitam!
E por isso, no processo de encher a tela, a menina deixou que o pincel corresse pela paleta e, a cada pincelada, escolhesse a cor que o coração lhe mandava!


In Meninas Aladas

sábado, 11 de outubro de 2014

Diálogo



Encontrei-os. Ao silêncio e ao ruído. Podem ambos conviver em mim. Precisam um do outro. Se não se atrapalharem mutuamente, se se entenderem, se se permitirem um ao outro, fazem maravilhas.
Encontrei a dor e a cura. Ela vem sempre que lhe abrimos a porta. Ambas vêm só quando lhes abrimos a porta.
Encontrei o caminho. Basta abrir os olhos e ver. E deixar que os olhos vejam. A coragem para o seguir é o que vem logo depois. E custa muito menos que o primeiro esforço de abrir os olhos. E de deixar a ilusão de que a Felicidade só existe às vezes. E de que não temos lugar.
Há sempre um lugar. Nós somos o lugar. Onde podemos descansar. Ou não. Podemos também correr.
Somos peças de puzzles, mas não precisamos encaixar perfeitamente. Se fosse assim, o puzzle não seria tão belo. E não faria sentido. Não seriam precisas tantas peças.
Por isso como poderemos alguma vez estar desalinhados? 
E porque sei que não, chegou a hora de ir. Não vou embora. Apenas sigo. Não desapareço. Apenas estou. No meu lugar.

Até sempre,

A Desalinhada

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Um abraço

Foto: Descendo, Eduardo Cunha

Durante muito tempo temi o silencio. Quando ele me encontrava, apertava-me tanto, que a única hipótese que me dava era quebrá-lo. De uma única forma o conseguia. Com um grito do peito. Que tirava um pouco de mim a cada dia.
Temia-o. E no entanto chamava-o. Quando não vinha procurava-o como quem quer. Porque só ele me fazia libertar o tanto ruído que tinha. Que não me largava. Que eu não queria deixar ir. Que não podia. Que não queria.
Temia-o. Ás vezes ainda o temo. Ainda faço barulho para me esquecer que ele está ali.
Mas ele espera-me. Paciente. Sabe que volto. Sabe que o preciso.

 # Monólogos da Desalinhada #

sábado, 30 de agosto de 2014

Nadando

Sempre soube nadar só contra a corrente. Se me deixasse ir, afogava-me nas águas que levavam aonde eu já sabia e a calmaria das águas haveria de me engolir até que nada mais restasse.
Não chegaria nunca a terra, seria uma nova antártica. Mas de mim nem lenda ficaria, a história só lembra os derrotados quando há um herói que proclama vitória.
Nem eu o quereria, que me cantasse.
Se a corrente me vencesse os braços, apenas quereria ser esquecida. E esquecer.
A memória do que fui, sabê-la, tê-la presente, seria como afogar-me de novo. A cada segundo que passasse.
E é por isso que não consigo parar de nadar…!

Autor não identificado

sábado, 9 de agosto de 2014

Caixa alguma

Foto: Autor não identificado


Não caibo nessa caixa. Dou-te um pré-aviso, ainda que sabendo que não me ouves.
Não ouves o que te digo e por isso vais tentar colocar-me lá dentro, vais até ignorar o meu esbracejar defensivo. Acharás que podes mais que a física e que consegues colocar-me lá dentro. Tentarás fechar a tampa, usarás a força se for preciso. Mas a tampa não vai fechar.
E, porque acharás sempre que encontrarás um lugar onde me colocar, irás buscar outras caixas. E o périplo de novo se iniciará. Hei-de sempre resistir e tu hás-de sempre tentar. Talvez sejamos apenas dois teimosos, que insistem em teimar, apesar das evidências.
Mas eu não caibo nessa caixa. Por isso não posso deixar-te. E não caibo em nenhuma. Pelo menos não caibo, certamente, em nenhuma dessas que insistes em fazer-me ajustar.

# Monólogos da Desalinhada #


sábado, 12 de julho de 2014

Se visses

Foto: Alex MCQUEEN
Se realmente visses o meu sorriso, verias o que atrás dele com esforço escondo.
Mas dele conheces apenas o contorno dos lábios, que se arqueiam mais ou menos, ao sabor da minha vontade.
Aprendi, como tantos, a ensaiar gestos, a reter a minha mão quando sinto que a água que me refresca pode transformar-se em fogo. A atrasar o passo quando me puxam por aquele trilho, aquele que não quero seguir, aquele que me leva para longe de mim. Atraso o passo, engano-me na saída, não posso revelar o destino, gestos ensaiados.
Ensaio assim a Felicidade, porque a ela o Mundo se habituou, e eu ainda quero um pouco do que era.
Mostro um sorriso. Se realmente o visses, ao meu sorriso, verias o que abertamente te mostro.

Verias que sorrio apenas com os lábios.

domingo, 29 de junho de 2014

Cansaço



Diz-me, Mundo, não estás cansado? Tens que estar, não é possível que não estejas cansado! Cansado, sabes o que é? Quando dói, mas uma dor de habituação, na vez daquela dor lancinante da surpresa, aquela que vem quando nos pregam uma rasteira e caímos ao chão de corpo todo. É sim aquela dor que mói, que pressiona os músculos, que os faz moverem-se mais devagar, ainda que a cabeça diga para correr. É isso o cansaço… Deves estar cansado…, não estás?

Pronto! Digo eu primeiro: estou cansada!!! Cansada destas lutas diárias contigo, deste eterno braço de ferro, que ganho nuns dias, perco noutros. Dias de glória, seguidos de dias de amarga derrota. E de bater de frente contigo, das nódoas negras que mal se vêm, mas estão lá… Na minha pele e na tua, Mundo! Não julgues que não tens marcas, porque também as tens, debaixo dessa tua basófia de que és superior a tudo, de que nada te atinge e nada te fere. És tão frágil como eu e como todos os outros. Só te julgas mais forte.

Mas tens a teu favor a vantagem da indiferença. Da indiferença de todos quantos se conformaram e vivem agarrados a ti. Alimentando-se de ti. Controlados por ti. Numa espécie de simbiose aparentemente equilibrada. E nem tu nem eles notam isso. Tu não notas que ninguém te reverencia, que apenas a necessidade e a comodidade os mantêm contigo. Muito menos eles notam que já se perderam a si mesmos…

E eu estou tão cansada… Por isso hoje apetece-me dizer-te que ganhaste! Que desisto! Que me leves tudo! Tudo o que sou, o que acredito, o que quero! Leva, leva tudo! Na realidade já tanto me tiraste, já tantos pedaços faltam neste puzzle embaralhado! Porque não levares tudo??


Leva, e deixa-me! Deixa-me aqui, sozinha, mas livre! Não pedirei nada mais!

# Monólogos da Desalinhada #

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Bullets

Arte: Marius Markowski
I feel the bullets in my body, most of them bounce back, they fall on the ground, next to their old shells, now empty shells.
Still, some reach my skin, blood pours from my flesh, wounds that will never completely close. Here and there, a big hole, from side to side, some bullets go just through.
But still no one merciful final bullet finds me. One bullet missing: the one that will bring me back to life…


sábado, 31 de maio de 2014

Queda

Um dia decidi cair. Atirar-me de lá. Ao ver-me aproximar da beira, um uníssono “NÃO!”. Um abismo era o que todos viam. Um mar calmo e de águas límpidas a meus olhos.

Hesitei. Poderiam dois olhos ver melhor que tantos outros juntos?
Face a face com a dúvida, restou olhar para dentro e perguntar. De olhos cerrados, ouvia o som do marulhar, não ouvia ventos ocos.

A voz sussurrava-me, tu sabes.
E eu sabia.

E por isso deixei-me cair.
O splash senti-o na pele, a liberdade na alma.

Navego hoje, a água leva-me sempre ao destino. E se não for hoje, é amanhã.

Liberta do corpo de mulher, podia ser sereia. Mas já não preciso definir-me. 

Sei-me.


Para a Rosa, 
que teve a coragem de se encontrar

Arte: Sergey Samsonov

sábado, 10 de maio de 2014

Silêncio



Tango with lions – in a bar 

O dia está tão silencioso que posso ouvir os ponteiros do relógio a moverem-se, compassadamente. Mas tão, tão lentamente. Tão lentamente, que entre cada minuto, posso rever a minha vida toda na minha cabeça. Num minuto de trás para a frente, no minuto seguinte, da frente para trás. Significará isso que o tempo ora passa devagar, ou que a vida foi curta, no que importa contar?

Nos dias em que o significado das coisas me abraça, são essas as perguntas que me faço. E com a falta de respostas, o relógio anda mais devagar, e esse abraço aperta-me ainda mais, quase não me deixa respirar.

E não nascem respostas, só mais perguntas…




sábado, 29 de março de 2014

Embrulhados

Estão ali embrulhados
Dentro de uma caixa
Fechados sob uma fita
Num laço apertado
Atado por mãos
Que se acharam perfeitas
Um dia;
E noutro
Sucumbiram à realidade
Que lhes foi dada.
Estão ao menos guardados
Não foram por aí
Deixados
Mas fechei-os
Ao fundo de uma gaveta
Para não os ouvir
Eu que tanto gostava
De os escutar
Sentar-me com eles
A conversar
A delirar.
Fechei-os lá, amordaçados.
Não consigo mais,
Ouvi-los.
As mãos tremeram
Ao apertar o laço
Mas não podia mais olhá-los
Assim,
Desfeitos em pó.
Lembrar
De como um dia
Foram promessa…

Foto da web

sábado, 22 de março de 2014

Conversa contigo



E se eu pudesse um dia falar contigo, que te diria?
Será que te avisaria dos buracos na estrada? Será que os evitarias, ou acharias ainda que os podias reparar?
Será que te avisaria que um dia a vida te agarrará pelos pulsos e que vais sentir que é por eles que respiras? E que um dia sentirás que não tens ar, e que te habituarás a isso, por momentos? Por momentos, antes mesmo de gritares mais alto, e de assim voltares a encher os pulmões, agora um pouco lesionados.
Respirar eu sei, dir-me-ias tu, sei expirar e inspirar, no tempo certo.
Mas sem querer, começamos a inspirar, inspirar, inspirar… Como te poderia avisar?
E como te poderia convencer de que tens crenças vãs, menina?
Menina não, cresceste depressa. E não cresceste, és criança, acreditas, não devias. Não és ingénua, apenas acreditas. Chamas-lhe esperança. És bonita, és feliz. Mas és tola. E vais perceber isso. Pensará que o Mundo to tirou. Mas não tirou. Tu é que és tola. Remas, não desistes da outra margem, mas ninguém gosta de navegadores. Só dos que a História recorda.
Por cada remadela que dás, há ventos que se levantam. E tu achas que os podes ultrapassar. Tola. Menina tola.
Tola és tu!, me dirias.
Talvez não te dissesse, tens tempo de crescer o que te falta. E eu quero que tenhas razão. Que a tola seja eu.
Se eu pudesse um dia falar contigo? Que te diria? A ti que eu já fui.

#Monólogos da Desalinhada

Foto da web

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Chuva

A tempestade abateu-se violentamente sobre a rua. Corro, mas subitamente cansada, rendo-me a ela e ao frio que me trespassa o corpo.

Paro sob os beijos das pesadas gotas da chuva e deixo-me levar pelo abraço do vento que me rodopia não sei para onde.

Não ofereço resistência, percebo que tenho que viver o Inverno, assim como outras estações. Todas no seu tempo, todas quando os astros mandarem.

Temi deixar de poder ser borboleta, colibri e ainda coruja à noite. Mas é apenas tempo de as minhas asas descansarem.

E envolta nestas divagações me vejo pousada no chão, com delicadeza contrária àquela que me puxou.

É o vento quem está agora cansado. Também a chuva parou. Em quase tudo.
Mas por cima de mim ainda. Uma chuva miudinha. Fresca. Suave carícia.

Não sei quando, mas a Primavera vai chegar.


In Meninas Aladas

Foto:  Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard 
Presente da Fátima

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bolha de silêncio

Há tanto vivo
numa bolha de silêncio,
auto-imposta
pelo ruído à volta.

No meu silêncio,
falo comigo mesma,
qual louca sem camisa de forças.

Rendo-me!

Se o mundo tivesse sido feito
pelos sãos,
ainda viveríamos numa caverna,
com medo de espreitar a luz.
Ficarei aqui,
mesmo sabendo que só os loucos
saberão encontrar-me!

# Monólogos da Desalinhada #

The Spirit of Photography, Anne Brigman.(1869–1950)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Árvore – lanterna

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard
Presente da Fátima


Com a cortina agora já quase encerrada sobre Janeiro, amparo-me à minha pequena árvore-lanterna. Ainda lá se mantém no cimo a luz que apanhei  no Solstício de Inverno, e ainda que os dias sejam já mais claros, é lá que a quero manter.

Hoje que chove e faz frio, recolhi as asas, acolho a lembrança dos dias quentes e nela me agasalho. Protegida dos elementos, me renovarei, de acordo com o mês de Jano.

Ainda assim, ao contrário do deus, olharei apenas numa direcção, para o que vem.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Aquela estátua

Dizem que a chuva já se foi, então porque a sinto em mim, escorrendo pela pele, pelos cabelos, então porque a sinto a entranhar-se nos ossos, então porque sinto um trovão a ribombar cá dentro?
Porque sinto a água a misturar-se no pó, lentamente a formar lama em torno de mim, uma camada protectora de lama.
Quando vier o sol, secará. E então tornar-me-ei estátua.
Presa dentro de mim mesma, a ver a vida à minha volta, a passar por mim, a ver os Outros a caminhar por ali, a passar sem me olharem sequer. Outros, alguns a pararem apenas para uma recordação. Uma foto com aquela que um dia Foi.
Por quanto tempo será que me vou debater com o invólucro? Será que me vou debater sequer? Será que este outro invólucro está tão cheio quanto eu o vejo?
Será que esta chuva é outra? A da rua? A da rua da estátua daquela que uma dia foi?

# Monólogos da Desalinhada #
Isa Lisboa


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