Dois homens encontraram uma corda no meio da estrada.
Um viu-a primeiro, um segundo primeiro. Outro agarrou-a
primeiro, um segundo primeiro.
Ambos a sentiram sua, dúvidas não havia.
Agora só a força poderia decidir a contenda, com força a puxaram,
um de cada lado, à força ela não cedia. À força do outro, nenhum cedeu. Só ao
cansaço, nem um segundo antes, nem um segundo depois.
A extremidade ainda comprimida nas suas mãos.
Ouviram então no meio do cansaço uma voz. Era um menino que os
chamava.
“Para que precisam dessa corda?” – perguntou.
Olharam um para o outro, um não sabia dizer, o outro também não.
Ao segundo seguinte, ambos a largaram. “Não a queremos mais”,
disse um. “Podes ficar com ela”, disse outro.
Então o menino pegou na corda, por ambas as extremidades e
levou-a.
Com um grande sorriso, exibiu-a aos amigos e gritou: “Bora
saltar à corda?!?”
Acordei e logo me lembrei do meu céu, fiquei ansiosa por ir à
janela contemplar o belo azul. Ainda estava lá, preparei-me para uma caminhada
pelo mar, o meu outro azul.
Ao guiar, a estrada parecia-me estranha, o alcatrão não parecia
o mesmo, estava firme como sempre, mas parecia já não ter a mesma cor de antes…
Não é que me queixasse, aquele preto de alcatrão não é tão belo como o meu
azul, não me fazia falta.
Chego à praia e lá estava o meu azul, e a sensação da areia nos
pés era também a mesma, mas algo estava diferente.
Volto à estrada, chego à cidade, as ruas, os prédios no mesmo
sítio, acho que até as mesmas pessoas.
Mas lá continuava ainda algo diferente.
Procurei a entrada do edifício que me esperava, continuava azul,
aquietei-me.
Ainda assim, aquela sensação não me abandonava, o dia passou e
ela lá comigo.
Precisava relaxar um pouco, fui de novo até à praia, era hora do
pôr-do-sol.
Cheguei mesmo a tempo.
Sentei-me no meu rochedo favorito e procurei o sol no horizonte.
Mas não distinguia o sol, muito menos o horizonte.
Percebi então o que estava diferente naquele dia. E entendi
também quem tanto defende o amarelo. (*)
(*) Ditado popular: “Se todos gostassem do azul, que seria do
amarelo?”
Foto: Karl Taylor
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O dia está tão silencioso que posso ouvir os ponteiros do relógio a moverem-se, compassadamente. Mas tão, tão lentamente. Tão lentamente, que entre cada minuto, posso rever a minha vida toda na minha cabeça. Num minuto de trás para a frente, no minuto seguinte, da frente para trás. Significará isso que o tempo ora passa devagar, ou que a vida foi curta, no que importa contar?
Nos dias em que o significado das coisas me abraça, são essas as perguntas que me faço. E com a falta de respostas, o relógio anda mais devagar, e esse abraço aperta-me ainda mais, quase não me deixa respirar.
Ao acordar algo me parecia
diferente no quarto. Não conseguia perceber o quê. Talvez fosse apenas sono,
ainda.
Saí para a manhã e a luz
não era a mesma dos dias antes. Em quê era diferente, não conseguia perceber.
Era meio tom mais clara, ou mais escura, mas meio tom apenas. Fosse como fosse,
parecia iluminar-me mais.
O dia foi correndo, e tudo
era igual, mas diferente. Estava definitivamente diferente.
Foto: hand_hands_reflection_ by Suri
Mas continuava sem
perceber o quê.
Observava tudo e todos, mas
em nada e em ninguém conseguia identificar o que estava diferente do dia
anterior.
Passei em frente a uma
montra, e vi algo que parecia dar-me a resposta, mas era hora de seguir, o dia
avançava, não podia ficar ali a procurar.
Cheguei a casa, já de
noite, o céu estrelado estava diferente, não sabia bem em quê, a porta de casa
parecia diferente, não sabia bem em quê. A chave entrou, a porta abriu, ainda
estava em casa, apesar do dia diferente.
Parei então; ao passar em
frente ao espelho, lá estava a resposta que havia apenas vislumbrado antes. Não
a vi logo, mas quando parei e olhei, vi.
Era o meu espelho que estava
diferente, o que ele me devolvia estava diferente.
Este conto foi escrito e publicado originalmente no Blog Pense fora da caixa, onde colaboro regularmente.
Avisaram-me sobre a sala dos
espelhos, mas eu não quis ouvir. Há quem tenha saído de lá louco, disseram-me.
Eram as histórias da Casa do Terror, faziam parte do apelo, pensei eu.
Ao entrar, vi espelhos a toda a
volta, uns maiores que outros, dourados, prateados, de ferro forjado, de
madeira apenas, quase sem tinta, alguns. Estavam ali, eu no meio.
Olhei e vi-me, não o comum reflexo,
era eu e não era eu. Havia um eu em cada espelho.
Roupas diferentes, cabelo diferente,
cabeça erguida de forma diferente, sorriso mais ou menos aberto.
Um eu em cada espelho. Cada uma me
olhava, bem no fundo de mim, bem no fundo dela.
Quem são vocês, somos tu. Seríamos
tu.
E então apontaram-me os dedos
acusadores. Seríamos tu, quem poderias ter sido, somos quem não tiveste coragem
de ser. Não, não pode ser, tinham razão, a sala dos espelhos trazia-nos a
loucura. Cobarde, apontavam, cobarde, gritavam. Podias ter sido eu, se tivesses
ido por ali, dizia uma, por além dizia outra, se tivesses ficado quieta, outra
ainda…
Não, vocês não são eu! Gritei. Eu sou
eu. Sou todas as escolhas, quem eu não fui já não existe, nunca existiu, EU
escolhi que não existissem!
E então os espelhos calaram-se.
Percebi que estava liberta. Podia ir, os meus eus estavam em paz comigo.
Deixaram-me ir. Embora por vezes ainda me pareça que me sussurram aos ouvidos…:
Podias ter sido eu…
*-*-*-*
They
warned me about the hall of mirrors, but I didn’t listen. Some have gotten out
of there crazy, they told me. Those were
the stories of the House of Terror, were part of the appeal, I thought.
Upon
entering, I saw mirrors all around, some larger than others, gold, silver,
wrought iron, wood only, almost out of ink, some. They were there, me in the
middle.
I
looked and saw myself, not the common reflection, it was me and it wasn’t me. I
had one I on each mirror.
Different
clothes, different hair, head up differently, smile more or less open.
An I
in every mirror. Each one looked at me, deep inside of me, deep inside her.
Who
are you, we are you. We would be you.
And
then they pointed me with accusing fingers. We would be you, who you could've
been, who you had no courage to be. No, it couldn’t be, they were right, the
hall of mirrors brought us crazy. Coward, they pointed, coward, they shouted.
You could have been me, if you had gone that way, said one, that other way said
by another, if you had been quiet, yet another ...
No,
you are not me! I yelled. I am me. I'm all choices, who I have not been doesn't
exist, never existed, I chose that they do not exist!
And
then the mirrors were silent. I realized I was free. I could go, my selves were
at peace with me. They let me go. Although sometimes it still feels they
whisper in my ears ...: You could have been me ...