Quem lê / Who's reading

"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 26 de setembro de 2015

Rosa Maria

Desenho: Luana Santos, 2013
Maria Rosa chegou.
A noite ficou lá fora.
Acabou.
Ela acabou quando a noite acabou.
Alimenta-se
Da música
Dos neóns brilhantes
Dos aromas da noite - 
Tão diferentes dos do dia -
Dos sons que se misturam
Distintos na sua indistinção
Dos sorrisos, dos risos
Às vezes beijos, abraços
Atrevidos
A pele treme
Na noite
Na noite que ficou lá fora
Tudo se dilui na chuva de gente
Feliz. Feliz porque ri.
Feliz porque dança. Feliz.
Aqui silêncio.
Aqui espaço vazio.
Da noite, só o vestido
Vermelho
Sobrou. A noite acabou.
Rosa Maria foi quem
Sobrou.

sábado, 29 de agosto de 2015

domingo, 19 de julho de 2015

Dois homens e uma corda

Foto: Segurança_Luísa Alvim

Dois homens encontraram uma corda no meio da estrada.
Um viu-a primeiro, um segundo primeiro. Outro agarrou-a primeiro, um segundo primeiro.
Ambos a sentiram sua, dúvidas não havia.
Agora só a força poderia decidir a contenda, com força a puxaram, um de cada lado, à força ela não cedia. À força do outro, nenhum cedeu. Só ao cansaço, nem um segundo antes, nem um segundo depois.
A extremidade ainda comprimida nas suas mãos.
Ouviram então no meio do cansaço uma voz. Era um menino que os chamava.
“Para que precisam dessa corda?” – perguntou.
Olharam um para o outro, um não sabia dizer, o outro também não.
Ao segundo seguinte, ambos a largaram. “Não a queremos mais”, disse um. “Podes ficar com ela”, disse outro.
Então o menino pegou na corda, por ambas as extremidades e levou-a.
Com um grande sorriso, exibiu-a aos amigos e gritou: “Bora saltar à corda?!?”


sábado, 11 de julho de 2015

O azul

Acordei e logo me lembrei do meu céu, fiquei ansiosa por ir à janela contemplar o belo azul. Ainda estava lá, preparei-me para uma caminhada pelo mar, o meu outro azul.
Ao guiar, a estrada parecia-me estranha, o alcatrão não parecia o mesmo, estava firme como sempre, mas parecia já não ter a mesma cor de antes… Não é que me queixasse, aquele preto de alcatrão não é tão belo como o meu azul, não me fazia falta.
Chego à praia e lá estava o meu azul, e a sensação da areia nos pés era também a mesma, mas algo estava diferente.
Volto à estrada, chego à cidade, as ruas, os prédios no mesmo sítio, acho que até as mesmas pessoas.
Mas lá continuava ainda algo diferente.
Procurei a entrada do edifício que me esperava, continuava azul, aquietei-me.
Ainda assim, aquela sensação não me abandonava, o dia passou e ela lá comigo.
Precisava relaxar um pouco, fui de novo até à praia, era hora do pôr-do-sol.
Cheguei mesmo a tempo.
Sentei-me no meu rochedo favorito e procurei o sol no horizonte.
Mas não distinguia o sol, muito menos o horizonte.
Percebi então o que estava diferente naquele dia. E entendi também quem tanto defende o amarelo. (*)


(*) Ditado popular: “Se todos gostassem do azul, que seria do amarelo?”


Foto: Karl Taylor

Estou a promover um pequeno inquérito sobre o blog. Peço-vos 2 minutos vossos para visitar este link e preenchê-lo. Ajudem-me a melhorar este espaço :)

Obrigada!



sábado, 27 de junho de 2015

Entendimento

Foto: Autor não identificado 
Um dia
Algo se parte
Apenas porque já não pode ser
Ou porque frágil
Já era o metal.
Fica ali um coto partido
Desengraçado
Desengonçado
Dependurado.
Tentamos um enxerto
Mas o corpo rejeita-o
Procuramos aceitar
O que era, se foi, não é
Mas o que ser?
Talvez então
- Pensamos –
Esquecer?
Arrancamos então mais pele
Seca
Tentamos dissolver o passado
Num futuro que queremos
Ou julgamos.
Nada muda
O mesmo ar
O mesmo som
As mesmas mãos que escorregam.
E é no segundo
Em que não mais
Conseguimos respirar
Que vemos
Entendemos
Sabemos:
Nada pode mudar.
Apenas Eu!

sábado, 30 de maio de 2015

Intermitências

Foto: www.pixabay.com


Sou eu
Mas já não sou
Quanto mudou
Nas intermitências
De esquecer
E de deixar ir…
Leve,
Sei que ainda há
A libertar.
Decidida
Tranquila.
De mim
Não mais abdicarei.
O que a mais habita
Não ficará.
Passo a passo, a seu tempo
Se irá
Quando olhar para trás
Será mais um degrau
Da história de quem fui
Da escada que subi
Para chegar a quem sou.

sábado, 16 de maio de 2015

Caminhos

Foto: Andrea Clare
Procurei-te
Tempos e tempos
Talvez anos a fio
Nem sinal nem pista
Nada encontrava
Certa
Da tua existência
Jamais capitulei
Pelas estradas segui
Entre pó e alcatrão
O destino era certo.
Um dia senti-me cheia
Alguém te conhecia
Sabia-te ali perto.
Meus pés
Com energia renovada
Correram mais rápido
Que nunca.
Cheguei, perguntei.
Sim, estiveras ali
Desânimo, partiras.
Sentada numa pedra solitária
Decidia
Se seguia ou atrás voltava.
Um infante se aproximou
Sentou-se à minha frente
Finalmente chegaste!
Era esperada?
Sim, há muitas luas!
Quem to disse? Porquê sou esperada?
Disse-mo quem
Caminho te preparou
Esperada porquê?
Partiu ontem
Sem me o dizer!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Grata, Vida!



Foto: Google
"Velho pássaro, este mundo dorme como um menino e se renova cada manhã."

Thiago de Mello



Para lerem a minha reflexão pela Páscoa, convido-vos a visitar o meu outro cantinho, por aqui:



sábado, 28 de março de 2015

Casca de ovo

Foto da web, autor não identificado

Nascemos do ovo
Picámos a casca
Até sair
Ávidos do Mundo
Ávidos das possibilidades
Inexperientes
Tentámos voar
Caímos e voltámos a voar
Nova queda era certa
Mas ainda procurávamos
As tais possibilidades
O Mundo estava ali.

Como foi que acabámos
De novo
Dentro da casca?


Este poema foi originalmente publicado no:

sábado, 21 de março de 2015

Dúvida

- A dúvida às vezes impede-nos de nos transformamos em mulher-borboleta. -

Abraçada a mim própria
Enrroladinha em mim
Abro os olhos
O espaço é pequeno
A luz é ténue
Braços entorpecidos
Querem esticar-se
A medo
Arrisco
Toco a parede que envolve
Parece maleável
Empurro
Resisto, parece forte
Trago de novo o braço
Contra o corpo frágil que protege
Fecho os olhos
Não consigo adormecer
Os meus olhos não esquecem
A luz que parece vir
Daquele mundo lá fora
Pode ser ilusão
Mas Algo me diz que não é
Que é maior ainda
E se não for para mim?
Se não tiver olhos para a ver?
Enrrolo-me mais
Lentamente a luz esvai-se
Fica uma réstia apenas
Como que um brilho
Sinto frio
Sinto a cara molhada
Cansada
Adormeço.

Não sei quanto tempo
Mas de novo acordo
Sem pensar, espreguiço-me
As mãos e os pés
Tocam o invólcuro
De novo parece mexer-se
Continua escuro
Mas lembro-me da luz
Com as unhas tento vencê-lo
Puxo
Força
Rasgo um pedaço
Mais força
Abro um rasgão
E consigo espreitar
Como há mais luz
Que aquela que para aqui
Passava!

Quanto mais não fui?
Quanto mais posso ser?
Atrevo-me?


sábado, 17 de janeiro de 2015

Suspensa

Foto: Suhtukaa, Tesouro sem chave, CarlosSaramago

Suspensa
Paira sobre mim
A memória do que fui;
Os sonhos
Que me consomem o futuro
Ao alcance de uma mão
Que não consigo esticar.

Parada, nesta pose tanto
Estudada
Não consigo mais ficar
Estico uma mão acima
Outra ao lado
Passado ou futuro
Algum me há-de
Puxar.


sábado, 26 de julho de 2014

Chagas

Arte: Autor não identificado

Ferida aberta
O sangue jorra, quente
O calor adormece
A dor também
Pode tornar-se anestesia;
E enquanto não a olho
Não a sei.
Lembro as cicatrizes
A carne a fechar-se
Como me rasgou a pele
A agulha a suturar
Como pode a cura superar o golpe?
Regeneração ou mera estética,
A chaga desaparece
Ou fica por debaixo da pele?

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Essencial




Há quanto tempo
Não ouvia este som?
Simples e visceral.
Porque se fecham
Os nossos ouvidos
Ao que é vital?
Talvez seja o compasso
A necessidade
Que tornem tudo tão habitual…
Oiço agora,
Para dentro e para fora,
Como seria natural…
Quando apenas empurramos
para dentro, esquecemos
Do que é essencial…

Volto à pergunta inicial,
Há quanto tempo não ouvia
A minha própria respiração…?

sábado, 10 de maio de 2014

Silêncio



Tango with lions – in a bar 

O dia está tão silencioso que posso ouvir os ponteiros do relógio a moverem-se, compassadamente. Mas tão, tão lentamente. Tão lentamente, que entre cada minuto, posso rever a minha vida toda na minha cabeça. Num minuto de trás para a frente, no minuto seguinte, da frente para trás. Significará isso que o tempo ora passa devagar, ou que a vida foi curta, no que importa contar?

Nos dias em que o significado das coisas me abraça, são essas as perguntas que me faço. E com a falta de respostas, o relógio anda mais devagar, e esse abraço aperta-me ainda mais, quase não me deixa respirar.

E não nascem respostas, só mais perguntas…




sábado, 1 de março de 2014

Cinzel


Se soubesse de que é feita
Procuraria as ferramentas certas
Para te arrancar essa máscara.
Não por mim
Que te vejo transparente,
Mas por ti
Que evitas espelhos
E não sabes onde seres tu.
Talvez seja de mármore
Perfeita como as estátuas dos Deuses
Mas fria ao toque
E para sempre estanque.
Um cinzel.
Aquele que usas para apagar as imperfeições.
Para alterar o ângulo.
Se eu tivesse força suficiente
Talvez o cinzel a partisse. 

Arte: Wiesław Wałkuski


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Não é importante



             Não é importante                                                                                Não é importante
                    Este golpe na pele                                           Este pedaço que se partiu;
                      Do sangue que se perde                                           Não é importante
                      Não necessito para sobreviver                 Esse outro que se esfuma
                          A hemorragia estancará                    Lentamente desaparece
                                   E o resto com o tempo           O pequeno buraco
                                                   Cicatriza           Ninguém o verá


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Mudanças

Ao acordar algo me parecia diferente no quarto. Não conseguia perceber o quê. Talvez fosse apenas sono, ainda.
Saí para a manhã e a luz não era a mesma dos dias antes. Em quê era diferente, não conseguia perceber. Era meio tom mais clara, ou mais escura, mas meio tom apenas. Fosse como fosse, parecia iluminar-me mais.
O dia foi correndo, e tudo era igual, mas diferente. Estava definitivamente diferente.
Foto: hand_hands_reflection_ by Suri
Mas continuava sem perceber o quê.

Observava tudo e todos, mas em nada e em ninguém conseguia identificar o que estava diferente do dia anterior.
Passei em frente a uma montra, e vi algo que parecia dar-me a resposta, mas era hora de seguir, o dia avançava, não podia ficar ali a procurar.
Cheguei a casa, já de noite, o céu estrelado estava diferente, não sabia bem em quê, a porta de casa parecia diferente, não sabia bem em quê. A chave entrou, a porta abriu, ainda estava em casa, apesar do dia diferente.

Parei então; ao passar em frente ao espelho, lá estava a resposta que havia apenas vislumbrado antes. Não a vi logo, mas quando parei e olhei, vi.
Era o meu espelho que estava diferente, o que ele me devolvia estava diferente.


Este conto foi escrito e publicado originalmente no Blog Pense fora da caixa, onde colaboro regularmente.
Convido-vos a ler as minhas outras publicações lá, bem como as dos restantes autores.

sábado, 31 de agosto de 2013

Roller Costaer



Foto: István Sándorfi
Sometimes
Life feels like a roller coaster,
because of the adrenaline rush,
because you can see things faster,
from above,
upside down.
Other times,
just because
the train ends up coming back
to the same place…
And then,
it’s already late at night,
the lights went off,
the music is silent,
the carnival is closed.


Isa Lisboa

sábado, 11 de maio de 2013

A sala dos espelhos / Mirror room

Brian Crain - Time Forgotten 

Avisaram-me sobre a sala dos espelhos, mas eu não quis ouvir. Há quem tenha saído de lá louco, disseram-me. Eram as histórias da Casa do Terror, faziam parte do apelo, pensei eu.
Ao entrar, vi espelhos a toda a volta, uns maiores que outros, dourados, prateados, de ferro forjado, de madeira apenas, quase sem tinta, alguns. Estavam ali, eu no meio.
Olhei e vi-me, não o comum reflexo, era eu e não era eu. Havia um eu em cada espelho.
Roupas diferentes, cabelo diferente, cabeça erguida de forma diferente, sorriso mais ou menos aberto.
Um eu em cada espelho. Cada uma me olhava, bem no fundo de mim, bem no fundo dela.
Quem são vocês, somos tu. Seríamos tu.
E então apontaram-me os dedos acusadores. Seríamos tu, quem poderias ter sido, somos quem não tiveste coragem de ser. Não, não pode ser, tinham razão, a sala dos espelhos trazia-nos a loucura. Cobarde, apontavam, cobarde, gritavam. Podias ter sido eu, se tivesses ido por ali, dizia uma, por além dizia outra, se tivesses ficado quieta, outra ainda…

Não, vocês não são eu! Gritei. Eu sou eu. Sou todas as escolhas, quem eu não fui já não existe, nunca existiu, EU escolhi que não existissem!

E então os espelhos calaram-se. Percebi que estava liberta. Podia ir, os meus eus estavam em paz comigo. Deixaram-me ir. Embora por vezes ainda me pareça que me sussurram aos ouvidos…: Podias ter sido eu…

*-*-*-*

They warned me about the hall of mirrors, but I didn’t listen. Some have gotten out of there crazy, they told me.  Those were the stories of the House of Terror, were part of the appeal, I thought.
Upon entering, I saw mirrors all around, some larger than others, gold, silver, wrought iron, wood only, almost out of ink, some. They were there, me in the middle.
I looked and saw myself, not the common reflection, it was me and it wasn’t me. I had one I on each mirror.
Different clothes, different hair, head up differently, smile more or less open.
An I in every mirror. Each one looked at me, deep inside of me, deep inside her.
Who are you, we are you. We would be you.
And then they pointed me with accusing fingers. We would be you, who you could've been, who you had no courage to be. No, it couldn’t be, they were right, the hall of mirrors brought us crazy. Coward, they pointed, coward, they shouted. You could have been me, if you had gone that way, said one, that other way said by another, if you had been quiet, yet another ...

No, you are not me! I yelled. I am me. I'm all choices, who I have not been doesn't exist, never existed, I chose that they do not exist!

And then the mirrors were silent. I realized I was free. I could go, my selves were at peace with me. They let me go. Although sometimes it still feels they whisper in my ears ...: You could have been me ...


Isa Lisboa, 10.02.2013
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