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"a escrita é a minha primeira morada de silêncio" |Al Berto
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sábado, 31 de outubro de 2015

Noite de Bruxas (Republicação)


Este conto foi escrito entre Novembro de 2011 e Novembro de 2012… Resgatado de entre memórias difusas, realidades que se confundem com sonhos, todas apanhadas pela caneta de uma escritora…




   I


Seguimos no carro por entre as árvores verdejantes, que formam um arco sobre as nossas cabeças, deixando a sensação de estarmos a ser guiados por um roteiro mágico. Ao fundo vislumbra-se por entre a vegetação densa o que parecem ser as torres do castelo de uma princesa de contos de fadas, quase espero que a fada Sininho passe alegremente a fazer as suas travessuras...


Ao longe vejo uma fogueira a crepitar no cimo da serra, mantém-se uma chama viva, apesar de a chuva bater cada vez mais forte. Lembram-me dos rituais que se diz são ainda praticados por aqui... Imagino pós a serem lançados à fogueira, mantendo aquela chama crepitante e tão misteriosa...


Chegámos à aldeia, seguimos agora pelas ruas estreitas, direita, esquerda, em frente, direita. Paramos junto ao velho coreto, imagino-o testemunha silenciosa e paciente de amores e desamores, revoluções e conspirações, danças pagãs e procissões em honra aos santos. Vários carros parados, um lugar vazio, um único, parece que reservado para nós.


Entramos, espera-nos um mestre de cerimónias, vestido a rigor. O seu olhar de imediato me prende os olhos, sinto a vento a fustigar-me as costas, a porta atrás de mim fecha-se com a força do vento.


Dirigimo-nos à mesa, um lobisomem entra furtivamente na sala, enquanto me sento em frente a uma aranha que se passeava pela mesa e que estranhamente parece olhar-me como se fosse uma presa... Por um breve momento, preciso lembrar-me de que é Noite das Bruxas, em que os monstros saem à rua, o único dia em que podem passear-se livremente, sem assustar os mortais...


Trazem-nos a ementa para a noite, o que me distrai das intrigantes sensações que me assaltam desde que cheguei. Como entrada, Salada de Tentáculos de Monstro Marinho, com Óleo de Azeitonas Embruxadas, seguindo-se Peito de Dragão Alado com Frutas dos Duendes embebidas em Poção Mistério. Assim avançamos até à sobremesa, Tarte de Frutos do Bosque Encantado com raspas de Asas de Morcego.


À volta, o lobisomem continua a passear-se, falando descontraidamente com uma vampiresa que parece pronta para voar pela noite em busca não entendo de quê...


Passamos ao pequeno jardim, onde abóboras suspensas no ar - como terão feito este truque - iluminam este espaço onde a noite se adensa. Trazem-nos um cálice, dizem-nos que são lágrimas de feiticeira, néctar muito raro, que temos que provar, pois nunca esqueceremos o sabor daquela bebida exótica. Começo por saborear um pouco, deixando o sabor apoderar-se dos meus lábios, sinto uma mistura de doce com pimenta, que fervilha na pele, convidando a beber mais. Arrisco e sinto que um leve fogo me queima a garganta, e avança pelos meus músculos, sinto como que um vórtice me suga e perco os sentidos...! 

Acordo ouvindo vozes há minha volta, parecendo distantes como se um vidro estivesse entre nós... Abro mais os olhos e vejo que existe, sim, um vidro, à minha volta, redondo, com filigranas de cor rubi... como os do copo de que acabei de beber... Vejo à minha frente a cara do Maître, um gigante...Não, não é gigante, sou eu que estou minúscula, dentro do cálice que me ofereceram. Ainda adormecida de todas estas novas sensações, tento perceber o que se passa,  consigo perceber que não chegarei ao topo, não vislumbro como poderei sair... O Maître diz-me "Não podes sair", como se adivinhasse os meus pensamentos. Começo a recuperar as forças, e bato no vidro, que se passa, onde me levas, responde-me...


Entrega-me noutras mãos e vejo à minha frente aqueles olhos perturbadores que ao início da noite me chamaram a atenção... Ao olhá-lo mais de perto, sinto o corpo adormecer, fico quieta, presa naquele olhar... Bebeste as lágrimas de feiticeira... Quando te vi, sabia que as provarias... Que queres de mim??? Como aconteceu isto...? Pergunto, com um misto de confusão, medo, sensação de que apenas posso estar a sonhar... As lágrimas de feiticeira são poderosas, quem as bebe fica prisioneira de quem serviu o cálice... Porque me queres como tua prisioneira? Os seus olhos não paravam de me fixar, como se estivessem mais fascinados comigo, do que eu estava com tudo aquilo, sentia-me já não com medo, mas como que hipnotizada... 


Não irei fazer-te mal, prendi-te neste cálice porque quero olhar-te, um dia já fui assim, e perdi quem eu fui... Quem tu foste? Já fui humano e com o olhar cheio de esperança como tu, tornei-me numa criatura da noite e não me lembrava de como era antes... Quero levar-te comigo, posso contemplar-te durante horas a fio, será que consegues devolver-me um pouco do que era...?


Fiquei suspensa daquelas palavras, daquele olhar saudoso e que sofria... Não precisas de mim para te lembrares como é ser humano, disse-lhe, se não estivesse ainda dentro de ti, não o terias reconhecido quando me olhaste, eu seria indiferente para ti, apenas mais uma mortal... Sei que te lembras, e sei que também te lembras que não se prende a esperança, porque senão ela morre... 


Tens razão, não posso manter-te aqui... Passou a mão por cima do cálice e de novo um vórtice me puxou, desta vez para fora do copo. Obrigada, disse eu, e sem saber se o devia fazer, peguei-lhe na mão, enorme, com garras, assustadora... Por momentos vi, vi quem tinha sido aquela criatura do imaginário... Vi que foi um homem com sonhos, alegrias e, sim, esperança... Vi como perdeu tudo isso, como se transformou num dos nossos medos mais profundos... 


Senti vontade de ficar ali mais um pouco, apesar de ele me dizer "Estás livre, podes ir embora, ninguém te travará." Fiquei, mais um pouco, lembrei-lhe daquelas pequenas coisas que fazem os humanos felizes, vi um brilho nos olhos dele, ouviu tudo e disse, "Preciso ir-me embora, apenas na Noite das Bruxas podemos estar entre os humanos, a noite está a acabar."


"Posso voltar na próxima Noite da Bruxas?", perguntei. Não esperei pela resposta, "Até daqui a um ano, estarei aqui", e saí, livre, como tinha chegado.


II

Há um ano que a serra me chama. Embrenho-me cada vez mais nas suas profundezas e nem sinal do meu misterioso amigo. A não ser a estranha convicção de que alguém me observa, a uma distância que não sei quanto segura é.


Quase me aventurei na noite, disposta até a encontrar vestígios dos velhos rituais que não sei se já consigo compreender.


Mas só numa noite do ano podemos estar entre os humanos, disse-me ele. Não fora isso, e o apelo da noite seria – suspeito - irresistível. Só assim já me acorda a meio da noite, arrancando-me de um sonho que acaba sempre da mesma forma.


Volto àquele sítio, sou eu mesma, vejo o meu rosto reflectido nos espelhos, não foi sonho, não naquela noite, apenas nas que se seguiram.


Aproxima-se outra noite das bruxas, ainda sei o caminho, voltarei lá. Vou cumprir a minha promessa, não apenas para manter a minha palavra, mas porque os sonhos não me são suficientes.



III

Noite de bruxas.


A lua cheia ilumina-me o caminho, por entre uma chuva fininha que deixa pequenas marcas na estrada, como que a deixar a marca do caminho de volta a casa. Que neste momento não sei se quererei encontrar.


Chego às mesmas ruas estreitas, direita, esquerda, em frente, direita. Lá continua o velho coreto, a olhar-me imponente, como se me conhecesse a mim e ao meu destino. Olhei à volta e encontrei as escadas, subi.


De lá de cima via-se a vegetação à volta, densa, envolta por um nevoeiro que parecia poder tocar-se.


De entre essa nuvem branca surgiu uma sombra na noite, que se materializou ao meu redor, sussurrou-me ao ouvido “Vem comigo”, e eu disse sim. Envolveu-me na sua capa e levou-me, esquerda, frente, direita, esquerda, vento, árvores, perdi o caminho.


“Onde estamos?” – quis eu saber.


“Em minha casa” A  mesa já estava posta para os dois, não queria jantar, queria perguntar-lhe tanta coisa, queria dizer-lhe tanta coisa, mas ele puxou-me uma cadeira, sentei-me.


Satisfez-me a curiosidade, deixou que o inundasse de perguntas. Calei-me então, e ganhei coragem para lhe dizer: “Tens vindo visitar-me, aos meus sonhos.” “De dia sou eu, de noite, estou contigo.”


E estendi-lhe a mão, “Quero que me vejas, como eu te vi naquela noite.”


Segurou-me a mão, gentilmente, apertou-a entre as suas mãos de fábula, e libertei a minha alma, para que a visse, para que se visse como eu o via.


Quando abri os olhos, vi que os seus estavam tristes. Que se passa?, perguntei. Não devias querer estar comigo. Porquê? Tens apenas uma vida para viver, não a eternidade de momentos para desperdiçar. E porque seria desperdício, estar aqui, contigo? Lembras-te do que te disse? Apenas numa noite do ano estou visível aos humanos… Eu sei, mas senti-te comigo nas outras noites, até durante o dia… Apostaria que estavas perto… Estava perto, mas não te poderei nunca tocar, apenas ver-te dormir, enquanto sonhas. Mas hoje não…


Lá fora a chuva aumentou, batia forte nos vidros, podia imaginá-la a formar um rio, um rio que nos renovaria.

E assim ao som da chuva, a nossa pele se fez igual, as mãos, os braços, os lábios, iguais, podiam tocar-se, sem medos, sem mais que o outro. E assim numa noite amei como se um ano fosse, como apenas numa noite mágica o poderia fazer. Deixei de ser eu, deixou de ser ele, na realidade não interessava, tudo éramos nós.


O nascer do sol aproximava-se, percebeu. Trouxe-me um cálice e ofereceu-me. “Não são lágrimas de feiticeira?” – Perguntei. Sorri. “Não, não quero prender-te mais. Nunca mais.”


Era quente, doce, mas tinha um toque amargo, bem lá no fundo, quase imperceptível, mas que ficou a escorregar-me na garganta, tentando libertar-se do doce. “O que é?” 


“Chá de Lethe” (*). Tocou-me docemente numa madeixa do cabelo, com um olhar de saudade que me deixou confusa, beijou-me de novo e eu deixei-me ir, esqueci o toque amargo do líquido que acabara de beber.


IV

Tenho acordado sobressaltada, os sonhos não me deixam. Não os entendo, voo pela serra, mas não tenho asas, nem sequer corpo, voo e não chego a lugar nenhum, limito-me a deambular, perdida nos céus da serra. Todos os dias sonho, todos os dias o sonho me acorda. Antes sonhava que bebia um vinho rubro, o vidro quebrava-se-me nas mãos, o líquido inundava o chão e eu fundia-me com ele, não me afogava, apenas deixava de existir ali. Agora sonho com os céus da serra.

Sonho em sobressalto, acordo e sinto um vazio que não sei tocar, a que não sei dar nome.

O meu caderno tem algumas folhas arrancadas. Não sei porquê. Talvez tenha lá escrito os sonhos de outras noites, porque me parece que já estive neste sonho antes.



Tenho menos sonhos agora. As noites são mais calmas. Os dias também. Eu não.

Está sol. O dia está bonito. Mas espero a noite. A lua é mais bonita, faz inveja ao sol. A noite é silenciosa, posso sentar-me a ouvir. Oiço muitas coisas à noite, muitas histórias, muitos murmúrios. Tento ouvir-me a mim mesma, há algo que tento ouvir. Mas não sei o que é. Mais difícil encontrar, quando não se sabe o que se procura.



A lua está tão bonita hoje. Ali, no cimo da colina. Parece que dorme no seu regaço. Junto à casa da colina. Sempre me fascinou, aquela casa, escondida lá em cima. Não sei bem porquê. Um dia irei lá.



Na Grécia Antiga, Lete ou Lethe (em grego antigo λήθη; [ˈlεːt̪ʰεː], grego moderno: [ˈliθi]) literalmente significa "esquecimento".

Na mitologia grega Lete é um dos rios do Hades. Aqueles que bebessem ou até mesmo tocassem na sua água experimentariam o completo esquecimento.

domingo, 19 de julho de 2015

Dois homens e uma corda

Foto: Segurança_Luísa Alvim

Dois homens encontraram uma corda no meio da estrada.
Um viu-a primeiro, um segundo primeiro. Outro agarrou-a primeiro, um segundo primeiro.
Ambos a sentiram sua, dúvidas não havia.
Agora só a força poderia decidir a contenda, com força a puxaram, um de cada lado, à força ela não cedia. À força do outro, nenhum cedeu. Só ao cansaço, nem um segundo antes, nem um segundo depois.
A extremidade ainda comprimida nas suas mãos.
Ouviram então no meio do cansaço uma voz. Era um menino que os chamava.
“Para que precisam dessa corda?” – perguntou.
Olharam um para o outro, um não sabia dizer, o outro também não.
Ao segundo seguinte, ambos a largaram. “Não a queremos mais”, disse um. “Podes ficar com ela”, disse outro.
Então o menino pegou na corda, por ambas as extremidades e levou-a.
Com um grande sorriso, exibiu-a aos amigos e gritou: “Bora saltar à corda?!?”


sábado, 11 de julho de 2015

O azul

Acordei e logo me lembrei do meu céu, fiquei ansiosa por ir à janela contemplar o belo azul. Ainda estava lá, preparei-me para uma caminhada pelo mar, o meu outro azul.
Ao guiar, a estrada parecia-me estranha, o alcatrão não parecia o mesmo, estava firme como sempre, mas parecia já não ter a mesma cor de antes… Não é que me queixasse, aquele preto de alcatrão não é tão belo como o meu azul, não me fazia falta.
Chego à praia e lá estava o meu azul, e a sensação da areia nos pés era também a mesma, mas algo estava diferente.
Volto à estrada, chego à cidade, as ruas, os prédios no mesmo sítio, acho que até as mesmas pessoas.
Mas lá continuava ainda algo diferente.
Procurei a entrada do edifício que me esperava, continuava azul, aquietei-me.
Ainda assim, aquela sensação não me abandonava, o dia passou e ela lá comigo.
Precisava relaxar um pouco, fui de novo até à praia, era hora do pôr-do-sol.
Cheguei mesmo a tempo.
Sentei-me no meu rochedo favorito e procurei o sol no horizonte.
Mas não distinguia o sol, muito menos o horizonte.
Percebi então o que estava diferente naquele dia. E entendi também quem tanto defende o amarelo. (*)


(*) Ditado popular: “Se todos gostassem do azul, que seria do amarelo?”


Foto: Karl Taylor

Estou a promover um pequeno inquérito sobre o blog. Peço-vos 2 minutos vossos para visitar este link e preenchê-lo. Ajudem-me a melhorar este espaço :)

Obrigada!



sábado, 17 de maio de 2014

Terminal de aeroporto


Música: Dead Combo – O assobio

Laura está em frente ao placard de partidas do aeroporto, tenta decidir para onde irá desta vez.
Acaba de aterrar e, mais uma vez, não encontrou o que procurava.
Olha para a sua bagagem. A pequena mala está cada vez mais gasta, pergunta-se quantas viagens mais aguentará.
Em cada nova viagem torna-se mais difícil de fechar, o que a fará estar tão mais pesada agora? – pergunta-se Laura. Para mais, parece-lhe cada vez mais pequena.
Talvez seja apenas o cansaço a falar.
Volta ao placard, as pequenas letras luminosas não lhe indicam o destino. Já tentou a maioria deles.
Desvia por momentos os olhos do néon, talvez precise mesmo descansar.
Encontra um banco livre e vai sentar-se por um pouco.
Nota então, lá ao fundo, uma banquinha com publicidade a destinos de viagem.
Decide ir ver, talvez lá encontre uma ideia de destino.
Puxa pela sua mala; até as rodas parecem já estar demasiado gastas, mas prometeu que a levaria sempre consigo, em cada viagem, até encontrar o que procurava.
Tantos panfletos espalhados, nem sabia por onde começar!
Foi pegando em alguns, destinos turísticos, cada um com a sua finalidade, praia, museus…
Folheou-os, leu-os, a maioria eram destinos conhecidos, os poucos que restavam não lhe pareciam prometedores.
Ia desistir da ideia dos panfletos, quando chegou alguém, devia ser a responsável pela banquinha.
Pegou num panfleto e estendeu-lho. “É este que procuras!”
Estranhando, Laura hesitou. “Toma”
Laura pegou-lhe, curiosa, percebendo que, curiosamente, se sentia agora menos cansada.
Abriu o panfleto.

 Lá dentro, apenas um espelho.

Foto: Kawika Singson



***


Este conto foi publicado originalmente aqui, no Blog Pense fora da caixa. Descubra também os meus textos neste espaço.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Poema Renascido

Tinha um poema escrito. Num dos velhos blocos de apontamentos. De há quanto tempo é este? Não o tinha mostrado a ninguém. Não me parecia. Não era. Não…
A folha já estava caída, amarrotada, estava a deixar de ser poema.
Notei uma folha em branco. Sobrou-me. Ou talvez a tenha deixado em branco de propósito. Ou inconscientemente.
Reli. E então vi as palavras que faltavam. Escrevi o poema – que sempre lá tinha estado – na página em branco que sobrara.


Se o meu poema pode reencontrar-se, porque não o farei eu?




Este conto foi publicado originalmente no Blog Pense fora da caixa, onde publico regularmente. Sigam por aqui, para descobrir esse espaço!

Post Scriptum: Este blog estará de férias por uns dias. Os vossos comentários serão aprovados assim que possível! :)


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Mudanças

Ao acordar algo me parecia diferente no quarto. Não conseguia perceber o quê. Talvez fosse apenas sono, ainda.
Saí para a manhã e a luz não era a mesma dos dias antes. Em quê era diferente, não conseguia perceber. Era meio tom mais clara, ou mais escura, mas meio tom apenas. Fosse como fosse, parecia iluminar-me mais.
O dia foi correndo, e tudo era igual, mas diferente. Estava definitivamente diferente.
Foto: hand_hands_reflection_ by Suri
Mas continuava sem perceber o quê.

Observava tudo e todos, mas em nada e em ninguém conseguia identificar o que estava diferente do dia anterior.
Passei em frente a uma montra, e vi algo que parecia dar-me a resposta, mas era hora de seguir, o dia avançava, não podia ficar ali a procurar.
Cheguei a casa, já de noite, o céu estrelado estava diferente, não sabia bem em quê, a porta de casa parecia diferente, não sabia bem em quê. A chave entrou, a porta abriu, ainda estava em casa, apesar do dia diferente.

Parei então; ao passar em frente ao espelho, lá estava a resposta que havia apenas vislumbrado antes. Não a vi logo, mas quando parei e olhei, vi.
Era o meu espelho que estava diferente, o que ele me devolvia estava diferente.


Este conto foi escrito e publicado originalmente no Blog Pense fora da caixa, onde colaboro regularmente.
Convido-vos a ler as minhas outras publicações lá, bem como as dos restantes autores.

sábado, 6 de julho de 2013

Menina asas de borboleta

Da série Correspondence, (c) Gaëlle Boissonnard - Presente da Fátima

Sempre tive asas. Desde que me lembro. Desde que nasci, parece-me. 

Não sabia para que serviam. Pequeninas, frágeis. Onde poderiam levar-me?

E quando falava nelas, ninguém me acreditava: ninguém as via a não ser eu! Seriam apenas fruto da minha imaginação? As crianças têm uma imaginação fértil, diziam-me os crescidos. 

Por isso às vezes duvidava...

Cresci, mas continuava a sentir as minhas asinhas presas às minhas costas, por vezes mexiam-se sem que eu pensasse nelas. Como se quisessem lembrar-me que haviam sido feitas para voar. E acho que era mesmo isso que queriam.

Mas continuavam invisíveis, e aos crescidos já não se desculpa a imaginação.

Comecei a não falar nelas...

Mas quando se nasce com asas, o vento nunca deixa de nos chamar. E vem o dia em que o vento é tão forte , que não podemos fingir que não o ouvimos.

E foi então que tive que as experimentar, comecei a bater as asinhas,  devagar ao início, depois percebi que elas eram fortes. Mais fortes que eu imaginava.

E, desde então, não mais deixei de voar.

sábado, 16 de março de 2013

Skin / Pele

Brian Cain, Wind

You took all my skin off. In just a few seconds, all my veins were in sight, showing the blood, flowing in it’s own rhythm towards the destination. And coming out again. Showing each one’s pulse, the more anxious, jumping from time to time, the more calm, enjoying the sight.
With another movement, they came off too.
Only muscles, now. Trying to hold together. All little fibres getting closer as if they were trying to form a sweater.
At last, I saw myself as only bones, glued to each other, desperately, sadly, keeping formation.
It was winter. I started getting colder. Got worse when I realized I was no longer inside. I was in  the middle of the street. At rush hour.
Some didn’t even noticed me. From the ones who saw me, only a few looked at me. Those smiled. The others kept on going, faster, faster.
It was getting so much colder now. And I got mad. How could you? Put me so undressed, in the middle of the street, in winter? How could I left… How…
A click. Bones touching.
People started moving even faster now.
So did my senses. I felt warmer.
So I asked time and space to stop, so that I could see them. And all the runners.
I saw the bandages some had on the skin, holding it together.
I had to peek, see if they were made of bone, just like me. They were.
They must have been on that spot once, too. Naked on the street. But they had bruises from the cold. They seemed to have dressed the skin back in a hurry. If the zipper got stuck, they’ve used glue.
Some made it harder on me. They had too much makeup. Through a slight breach, I saw them moving like pretty dolls, with perfect hair, tied in perfect little pig tails, having an imaginary cup of tea.
They looked at me, too. They politely said I should get dressed.
No, not yet.
I want to know what it’s like to kiss if you have no lips, and to touch if you have no skin. And I want to look at you, now that we are both free.

Writen 18.Nov.2005

***

Arrancaste-me a pele. Em apenas alguns segundos, todas as minhas veias estavam à vista, mostrando o sangue a fluir ao seu ritmo rumo ao seu destino. E saindo de novo. Mostrando o pulsar de cada uma, as mais ansiosas, saltando de tempos a tempos, as mais calmas, apreciando a vista.
Noutro movimento, também elas foram arrancadas.
Apenas músculos, agora. Tentando manter-se juntos. Todas as pequenas fibras juntando-se, como se estivessem  a tentar formar uma camisola.
Finalmente, vi-me como apenas ossos, colados uns aos outros, desesperadamente, tristemente, mantendo a formação.
Era inverno. Comecei a ficar com mais frio. Piorou quando percebi que já não estava em casa. Estava no meio da rua. Na hora de ponta.
Algumas pessoas nem sequer repararam em mim. Dos que me viram, apenas alguns olharam para mim. Esses sorriram. Os outros continuaram, mais rápido, mais rápido.
Estava a ficar mais frio agora. E então fiquei furiosa. Como pudeste? Deixar-me assim tão nua, no meio da rua, no inverno? Como pude eu deixar…Como…
Click. Ossos a tocarem-se.
As pessoas começam a mover-se mais rápido agora.
Também os meus sentidos. Senti-me mais quente.
E então pedi ao tempo e ao espaço para pararem, para que eu os pudesse ver. E a todos os corredores.
Vi as ligaduras que alguns tinham na pele, segurando-a.
Tive que espreitar, ver se eram feitos de osso, assim como eu. Eram.
Devem ter estado naquele lugar, um dia, também. Nus na rua. Mas tinham feridas do frio. Parecia terem vestido a pele à pressa. Quando o fecho emperrou, usaram cola.
Alguns dificultaram-me a vida. Tinham demasiada maquilhagem. Por uma pequena brecha, vi-os a moverem-se qual pequenas bonecas, com cabelo perfeito, atado em totós perfeitos, tomando uma chávena de chá imaginária.
Também eles olhavam para mim. Educadamente, disseram-me que devia vestir-me.
Não, ainda não.
Quero saber como é beijar, quando não tens lábios, e tocar quando não tens pele. E olhar-te, agora que somos ambos livres.

Retirado do baú, 18.Nov.2005

sábado, 5 de janeiro de 2013

Petra

El Tango de Roxanne, Moulin Rouge


Onde mora Petra?
Todos a conheciam, na última casa ali ao fundo, aquela pequenina, de telhado vermelho, com a luz mais fugidia da rua.
Bateu à porta, uma mulher que passava olhou-o, como se já o tivesse visto antes.
Petra veio à porta, o que fazes aqui? Agora não é hora de trabalho e nunca atendo aqui, esta é a minha casa.
Vim ver-te, Petra, quero falar contigo, deixa-me entrar.
De todos os seus clientes, Tomás era o mais gentil. Por vezes, até a fazia achar que o Mundo era belo, como nos livros que tinha sempre consigo, que às vezes lhe lia.
Deixou-o entrar.
Petra, vou-me embora, chamaram-me à cidade.
Não precisavas vir aqui dizer-me isso, atirou Petra, surpreendida pela amargura que reconheceu na sua voz.
Quero que venhas comigo.
Não sejas tolo, que iria eu fazer contigo??
Recomeçar, disse-lhe ele, comigo. Sabes bem que te amo, que…
Amor? – interrompeu-o. Palavra estranha aquela, sempre o achara. Nem me conheces, não me chamo Petra, sequer.
Vem comigo e muda o nome para o que quiseres.
Petra sabia que o amor era efémero e que Tomás seria um dia do Mundo, do Mundo dos seus livros, que escreveria novas páginas, de outros livros. E que ela não teria, então, lugar nesse Mundo.
Sou Petra e serei sempre Petra. Vestida em vermelho fulgurante, despida em lençóis baratos, oculta pela noite.
Amada entre quatro paredes, pensou Petra. As paredes que abafaram o resfolegar húmido do primeiro dia. Que abafaram o som das lágrimas que acabaram misturadas em suor, ignoradas nos lençóis.
Petra sabia que para lá daquela porta só chegava quem procurava enganar a solidão. A maioria procurava apenas libertar o desejo. Alguns procuravam o amor de ilusão consentida.
Petra não precisava ensaiar, fazia o seu papel de improviso, sempre de acordo com o argumento que esperava quem chegava.
Assim era amada por uma hora, uma noite. E esquecida no dia seguinte.
Sou Petra, não sei ser mais ninguém. Serei Petra até que o meu corpo murche e deixe de ser bonita na luz fraca da noite. Pertenço à penumbra, sou Petra à noite, durante o dia sou ninguém. Deu-lhe um beijo leve nos lábios e empurrou-o para a porta. Adeus.

A noite estava a chegar.

**

Do you know where Petra lives?
Everyone knew her, the last house in the corner there, that little one, with red roof, and the most elusive light on the street.
He knocked on the door, a woman passing looked at him as if she had seen him before.
Petra came to the door, what are you doing here? Now is not the time for work and never receive clients in here, this is my home.
I came to see you, Petra, I want to talk to you, let me go in.
Of all her clients, Thomas was the kindest. Sometimes he even made her think the world was beautiful, like in the books that he had always with him, that sometimes he read to her.
She let him in.
Petra, I'm leaving, I was called to the city.
You did not have to come here to tell me this, threw Petra, surprised by the bitterness she recognized in her own voice.
I want  you to come with me.
Don’t be silly, what would I do with you there?
Start over, he told her. You know I love you, you ...
Love? – She nterrupted him. Strange word that one, she had always thought so. You don’t know me, even my name, it’s not Petra.
Come with me and your name to whatever you want.
Petra knew that love was fleeting and that Thomas would be of the World one day, the World of his books, he would write new pages in other books. And then she would not have a place in this World.
I am Petra and will always be Petra. Dressed in brilliant red, undressed in cheap bed sheets, hidden by the night.
Loved between four walls, thought Petra. The walls that muffled the damp snort of the first day. That drowned out the sound of tears mixed with sweat, which ended up ignored in the sheets.
Petra knew that through that door only came those who seeked to deceive solitude. Most sought only to liberate desire. Some sought the love of consented illusion.
Petra did not need to rehearse, she did her part improvising, always according to the argument that those who came expected.
So she was loved by one hour, one night. And forgotten the next day.
I'm Petra, I can not be anyone else. Petra I will be until my body wither and I cease to be beautiful in the dim light of the night. I belong to the gloom, I'm Petra at night, during the day I am nobody. She gave him a light kiss on the lips and pushed him toward the door. Goodbye.

The night was coming.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Missão / Mission




Chegava sempre à mesma hora.
Colocava a banqueta e a tela no mesmo sítio, sempre. Sentava-se, tirava os pincéis. Começava a misturar as tintas. Rodava um pouco a tela – talvez para melhor a ajustar à luz.
Parava e esperava.
E, depois, quase sempre à mesma hora, pintava durante mais ou menos 15 minutos.
No início eram pinceladas largas, depois começaram a ser mais minuciosas.
Poisava os pincéis, arrumava-os, às tintas, ficava um pouco ali, imagino que a deixar os traços do dia secarem.
Pegava então por fim na tela, na maleta e na banqueta. Levanta-se, para voltar no dia seguinte, à mesma hora.
Mas houve um dia que não voltou. No dia seguinte e no outro e no outro também não.
Parecia ter cumprido a sua missão, mas qual ela era, eu nunca saberia.

Marta tinha chegado a casa havia pouco tempo, chovia lá fora, não parecia temporal, apenas aquela chuva que bate baixinho na janela e nos embala a preguiça.
Ouviu bater à porta.
Lá estava um homem – que achava já ter visto antes, mas não sabia onde.
Na mão trazia uma tela que lhe entregou. “É para ti, quero que te vejas como eu te vejo.”
Na tela viu o seu rosto, mas ao mesmo tempo um rosto que nunca tinha visto antes ao espelho.
Olhou para ele e sorriu.
E então ele desapareceu.

***

He always arrived at the same time.
He would place the stool and the canvas in the same place, always. He sat, pulled the brushes. Then would begin to mix the paints. Turn the canvas a bit - perhaps to better adjust to the light.
He stopped and waited.
And then, almost at the same time, he painted for about 15 minutes.
First there were broad brushstrokes, then they began to be more thorough.
He would lay down the brushes, arrange them, the paints, and would stay there for a bit, I imagine he was waiting for the traces of the day to dry up.
Then finally he picked the canvas, the suitcase and the stool. He got up, just to go back the next day, same time.
But then there was a day that he did not return. The next day and the next and the next either.
He seemed to have accomplished his mission, but what that was, I would never know.

Marta had arrived home a little time ago, it rained outside, it didn’t seemed like a storm, only the rain hitting the window softly, cradling her laziness.
She heard knocking.
At the door it was a man – who she thought she had seen before but did not know where.
He was holding a canvas that he gave her. "It's for you, I want you see yourself as I see you."
On the painting she saw her face, but at the same time a face that she had never seen in a mirror before.
She looked at him and smiled.
And then he disappeared.
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